MKULTRA: programa oficial e declarado da CIA para o abuso, tortura e controle de mentes

MKULTRA: CIA mutila e assassina milhares atrás do ‘controle da mente’

Pevertidos e facistas do monopólio degeneram o Estado americano com o “programa de controle de mentes da CIA”, que foi o maior escândalo de uma história sanguinária de assassinatos, terrorismo e embustes

O “MKULTRA”, como era denominado o programa de controle de mentes da CIA (as iniciais MK são de “Mind Kontrol” – a palavra “controle”, em inglês “control”, grafada com “k”, como em alemão) foi, provavelmente, o maior escândalo de uma história sanguinária de assassinatos, terrorismo e embustes – em suma, fascismo sem peias. Esta é a primeira de uma série de reportagens sobre o assunto.

Em 1975, no meio das investigações sobre os crimes da CIA – abertas depois de Watergate e da descoberta de que a CIA perseguiu dentro dos EUA (o que, além de imundo, é ilegal) os opositores à guerra do Vietnã -, revelou-se que desde 1953 a CIA (e o Pentágono) havia submetido cidadãos dos EUA e de outros países a “experiências” com o objetivo declarado de adquirir o “segredo do controle da mente” das pessoas. Sem que soubessem, provavelmente milhares de pessoas foram expostas à radiação, drogadas – sobretudo com LSD, mas também com misturas de drogas muitas vezes mais letais -, ou torturadas em testes “comportamentais”, ou submetidas a uma “reprograma-ção” mental para criar robôs-humanos com o objetivo de assassinato. Muitos foram levados à loucura e, pelo que se pode inferir com certeza, muitos à morte. Soube-se que a CIA havia espalhado o LSD pelos EUA e outros países – antes de 1953 só havia no mundo um pequeno estoque, no laboratório suíço Sandoz.

Um dos projetos do MKU-LTRA, por exemplo, era o de criar assassinos “insuspeitos”, isto é, assassinos involuntários, inconscientes, robôs, para que não pudessem ser ligados à CIA. Um documento de 14 de fevereiro de 1954, relata uma experiência com duas “voluntárias”: sob hipnose, “a senhorita [nome apagado] foi instruída (tendo expressado medo de armas de fogo) a que usasse qualquer método a sua disposição para despertar a senhorita [apagado] (agora em um sono hipnótico profundo). Se isso falhasse, ela deveria pegar uma pistola próxima e atirar na senhorita [apagado] Ela foi instruída de que sua raiva deveria ser tão grande que não hesitaria em ‘matar’ se falhasse em acordá-la. A senhorita [apagado] levou a cabo estas sugestões e, em seguida, caiu em um profundo sono. Depois que apropriadas sugestões foram feitas, ambas acordaram. A senhorita   [apagado] expressou sua negação de que a seqüência acima descrita tivesse acontecido” (CIA Mori ID 190691. P. 1).

Quanto à grande maioria, que não era de voluntários, com bastante razão, Alan Scheflin, jurista que há anos exige na Justiça a liberação de todos os documentos do MKULTRA sem trechos apagados, diz que “uma pessoa que diz ter sido vítima de um programa de controle da mente do governo está geralmente sob risco de não ser acreditada e de ser considerada mentalmente insana. E, de fato, há muitos que são vítimas de alucinações neuróticas. Mas (….) nós sabemos que existem vítimas verdadeiras porque nós sabemos os experimentos a que eles foram submetidos” (Jim Bron-skill, “Playhouse of Horrors”, Hamilton Spectator, 13/09/1997).

 submundo nazista 

Por exemplo, Linda McDonald tinha 25 anos quando, devido a uma depressão pós-parto, problema relativamente comum, recorreu a um ambulatório num departamento de psiquiatria de uma universidade – a incensada McGill, de Montreal, Canadá. O ambulatório fazia parte de uma seção do MKULTRA, estabelecida naquele país por ordem do diretor da CIA, Allen Dulles, sob comando de um americano, Ewen Cameron, o mesmo que, como presidente da Associação Mundial de Psiquiatria, vivia acusando os soviéticos de “uso político da psiquiatria” e pedindo a expulsão da URSS da entidade.

Linda McDonald, evidentemente, não sabia que estava entrando nesse submundo nazista. Em seu depoimento, no processo que moveu contra a CIA quase 20 anos depois, ela relatou que foi isolada num quarto, drogada durante 86 dias, recebendo 102 eletrochoques, o que foi confirmado pelo prontuário de sua inter-nação. Como não havia nenhuma indicação médica para esse “tratamento” de uma depressão pós-parto, foi-lhe pespegado um falso diagnóstico de “esquizofrenia aguda”. Certamente, também não havia indicação alguma dessa estupidez sádica para esquizofrenia, mas essa doença era – como até hoje – muito menos conhecida que uma depressão e, mais do que hoje, muito mais ameaçadora. No processo que Linda moveu, a CIA pagou uma indenização para encerrá-lo.

Um dos torturadores de Linda, um certo Peter Roper, que tinha um diploma de medicina e até um doutorado em psiquiatria, afirmou que “o objetivo era apagar os padrões de pensamento e comportamento que eram prejudiciais ao paciente que estava doente, e substituí-los por padrões saudáveis de pensamento e comportamento”. O depoimento de Robert Loguey, outra vítima do mesmo laboratório secreto, é bastante esclarecedor sobre esses “padrões saudáveis”: durante uma infinidade de tempo, Robert foi colocado num quarto isolado em que, durante 23 horas por dia, era obrigado a ouvir uma gravação com uma única frase – “você matou a sua mãe”. Também nesse caso, a CIA pagou indenização para encerrar o processo.

Um paciente do New York Psychiatric Institute, Harold Blauer, morreu em 1953, depois de uma dose cavalar de um derivado sintético da mes-calina, um alucinógeno encontrado em alguns cogumelos venenosos. Era a quinta dose que era administrada a ele, que queixava-se pungentemente do sofrimento após as outras “injeções”, das quais desconhecia o conteúdo.

Blauer procurou a instituição por estar sofrendo, após seu divórcio, de depressão. O psiquiatra que o atendeu, Paul Hoch, era do MKULTRA – a CIA tinha um contrato com o Departamento de Higiene Mental de Nova Iorque, para que pacientes fossem usados pelo seu programa de controle de mentes. A alta de Blauer do hospital já esta prevista para algumas semanas depois. Em 1987, depois de um processo movido por sua família, o governo americano foi condenado como responsável por sua morte.

A um grupo de “voluntários” (não se sabe voluntários para quê) foram administradas altas doses de LSD durante 77 dias. Vários envolvidos receberam dinheiro para instalar “dispositivos” elétricos em pacientes.

Há muito mais nos depoimentos – e, verdadeiramente, coisas muito mais escabrosas. Roper diz, numa excelente reportagem do programa “Fifth Estate”, da TV canadense CBC, que o MKULTRA “deve ter sido estimulado pelos efeitos das (sic) tropas americanas da guerra na Coréia, que pareciam ter sido submetidas a lavagem cerebral”.

Todos os criminosos do MKULTRA disseram a mesma coisa em seus depoimentos. No entanto, não houve um único caso de soldado americano na agressão à Coréia onde se comprovasse qualquer coisa a esse respeito, e já faz 50 anos que os americanos foram derrotados. Jamais houve um único caso, aliás, onde os comunistas, democratas e patriotas tenham realizado qualquer “lavagem cerebral”. Tanto é verdade que, além da falta de qualquer caso, os arquivos da KGB estão abertos há mais de 10 anos e nada se achou.

O MKULTRA começou muito antes da agressão a Coréia, com outros nomes, assim como continuou depois do seu propalado encerramento, também com outros nomes – e ninguém pode ter certeza de que não continua até hoje, sobretudo considerando que essa obsessão por controlar as mentes das pessoas é uma parte inseparável e essencial do fascismo ianque, que não se contenta com a gigantesca lavagem cerebral que a sua mídia submeteu o povo norte-americano depois da II Guerra.

Em 1947 – três anos, portanto, antes da agressão ao povo coreano – já havia um programa de “controle de mentes”, o Projeto Chatter, na época sob direção da Marinha americana. A CIA não existia ainda, mas o fascismo nos EUA, já.

Essencialmente, era a mesma coisa do MKULTRA, apenas em dimensões mais modestas. Em 1950, meses antes da agressão, a própria CIA estabeleceu o Projeto Bluebird, com as mesmas finalidades. E, em agosto de 1951, começou o Projeto Artichoke. Não se tem, por sinal, a data precisa de encerramento desses “projetos”. Sabe-se, por exemplo, que o Artichoke ainda estava ativo em 1956, três anos depois do início do MKULTRA. Portanto, este último não foi propriamente uma unificação dos outros, assim como não foi uma substituição do MKNAOMI, um projeto de igual caráter iniciado em 1952, em conjunto com o exército americano. Há comprovação documental de que até 1970 o MKNAOMI funcionou, junto com o MKULTRA e outros programas (todas a informações que acabamos de mencionar encontram-se no mencionado relatório do Senado dos EUA, parte XVII, “Testing And Use Of Chemical And Biological Agents By The Intelligence Community”, págs. 387/389, 1975).

 TENTATIVA DE DESTRUIÇÃO 

O leitor deve ter notado que nos referimos bastante, até agora, às vítimas da seção do MKULTRA que a CIA estabeleceu no Canadá. O motivo é que a documentação a respeito dela é muito mais completa que a sobre os crimes perpetrados nos EUA. Tanto assim que existem 127 processos de vítimas – ou de famílias de vítimas, no casos dos mortos – do MKULTRA no Canadá, e quase nenhum nos EUA. Até agora a CIA somente foi obrigada a reconhecer duas mortes nos EUA: a de Blauer e a de Frank Olson, tema da nossa próxima reportagem.

O motivo foi a destruição dos arquivos, inclusive dos registros de nomes das vítimas. Muitas delas, possivelmente, nem registra-das foram – entre outros “truques”, como a CIA chamava isso, foi estabelecida uma rede de bordéis, onde LSD e outras drogas eram administradas aos freqüentadores, enquanto os voyeurs do MKULTRA “observavam” as reações através de um espelho duplo instalado na parede do quarto. A isso a CIA chamou “Operação Midnight Climax”. 

 Em 1975, diante da Comissão Church, o chefe do MKULTRA, um psicopata de nome Sydney Gottlieb, declarou que toda a documentação referente ao programa tinha sido destruída em 1973 por ordem verbal do então diretor geral da CIA, Richard Helms. Em seu depoimento, Helms confirmou, acrescentando que foi por sugestão de Gottlieb que havia dado a ordem. Helms e Gottlieb tinham formado uma dupla desde a década de 50. E 1973 foi o último ano dos dois no   serviço ativo da CIA.

Vinte anos antes, em 1953, o MKULTRA foi uma proposta do então adjunto do vice-diretor de Planos (isto é, de operações encobertas) da CIA, Richard Helms, ao diretor-geral, Allen Dulles. Helms propunha “pesquisas para desenvolver uma capacidade de uso encoberto de materiais biológicos e químicos. Essa área envolve a produção de várias condições psicológicas que poderiam apoiar operações clandestinas presentes e futuras” (Memorando de Helms a Dulles, 03/04/53, Relatório Church, pág. 390). A história sobre “lavagens cerebrais” feitas na Coréia é, nesse memorando, claramente um encobrimento. Ela só aparece depois de Helms destacar o “potencial ofensivo” da sua proposta. Dulles ficou entusiasmado: 10 dias depois ele a aprovou.

É pertinente notar que o mesmo Dulles, nomeado por Johnson para a Comissão Warren, seria o principal mentor do insustentável e absurdo relatório que tentou encobrir a conspiração que redundou no assassinato de Kennedy.

Kennedy havia nomeado um novo inspetor-geral e um novo diretor-geral, John McCone, para a CIA. Em 1963, meses antes do assassinato de Kennedy, um dos funcionários da inspetoria, John Vance, em uma auditoria na Divisão de Serviços Técnicos da CIA, descobriu a existência do MKULTRA. Nessa época, Helms tinha sido promovido a vice-diretor de Planos da CIA. O inspetor-geral, então, “falou ao vice-diretor de Planos, que concordou que o diretor-geral devia ser comunicado, indicando, entretanto, que não estava seguro se era necessário comunicar ao diretor-geral sobre este ponto” (Rel. Church, pág. 401). A frase é tortuosa, mas apenas porque é o retrato do caráter de Helms.

Dias depois, Hel-ms disse ao inspetor que havia comunicado a existência do MKULTRA ao novo diretor-geral, e que McCone “não indicou discordância e, portanto, os testes continuarão”. Os “testes” eram, principalmente, a administração de LSD a não-voluntários, vítimas inocentes “em situações sociais”, como disse Helms no memorando a Dulles. Oun seja, funcionários civis e militares em reuniões de trabalho, pacientes de hospitais psiquiátricos, prostitutas e seus clientes em bordéis, estudantes e professores nas universidades, prisioneiros e “membros do público em geral”.

O chefe direto dessa porcaria nazista, Sydney Gottlieb – o mesmo que foi enviado ao Congo na tentativa da CIA de envenenar Lumumba – “era conhecido por torturar as vítimas fechando-as em câmaras de privação sensorial, fazer gravações da terapia de pacientes psiquiátricos e depois obrigá-los a ouvir suas declarações mais auto-degradantes a todo volume, após serem drogados com LSD” (cf. o sintético e fundamentado artigo “MKULTRA”, na Wikpedia)

No entanto, o inspetor-geral desconfiou do comunicado de Helms. Preparou uma versão do seu relatório “somente para os seus olhos” para o diretor-geral – e McCone, depois de lê-lo, suspendeu o projeto. Isso foi em maio de 1963.

Em dezembro de 1963 – portanto, após a morte de Kennedy, ocorrida em novembro – Helms enviou ao diretor-geral um memorando propondo a reativação do MKULTRA. Depois, em junho de 1964, quando McCone havia sido substituído na direção da CIA por um general de nome Carter, o MKULTRA foi retomado, como relata o Relatório Church, cujos autores acreditaram que a administração escondida de LSD havia parado em 1963, apesar de Gottlieb e Helms continuarem a mandar no MKULTRA por mais 10 anos.

As investigações de 1975, pelas comissões dos senadores Frank Church e Edward Kennedy (que através da Subco-missão de Saúde, que presidia, investigou as experiências em seres humanos), devido à destruição dos documentos internos do MKULTRA, tiveram que se basear somente nos testemunhos, em alguns memorandos da direção da CIA, e, sobretudo, em dois relatórios – de 1957 e 1963 – de inspetores-gerais.

Dois anos depois, em 1977, o escritor John Marks, na época preparando seu livro sobre o MKULTRA (“The Manchurian Candi-date”) solicitou, invocando a lei, uma pesquisa nos arquivos da CIA e a conseqüente liberação dos documentos porventura achados sobre o programa. Nessa época, o governo havia mudado, e o presidente Carter travava uma luta surda, se bem que algo tímida, para colocar a CIA dentro de certos limites. Foram descobertas, então, seis caixas de documentos do MKULTRA no Retired Records Center – o arquivo morto da CIA em Washington. Estavam numa seção do arquivo, a de Orçamento, onde não foram procuradas nem pelos destruidores – em 1973 -, nem pelos pesquisadores da Comissão Church, em 1975.

Iniciando a investigação dos novos achados, em 1977, o senador Kennedy assim os resumiu:

“Dois anos atrás, a Subcomis-são de Saúde do Senado ouviu depoimentos dados com frieza sobre as experiências da CIA em seres humanos. O Adjunto do Diretor da CIA revelou que cerca de 30 universidades e instituições foram envolvidas em um programa ‘extensivo de testes e experiências’ que incluíam testes de drogas escondidos em cidadãos ‘de todos os níveis sociais, altos e baixos, americanos natos e estrangeiros’ [citação de um memorando de Helms a Dulles, de 1953]. Vários desses testes envolviam a administração de LSD ‘em situações sociais, escondido dos indivíduos’. (….) A Agência admitiu que esses testes faziam pouco sentido científico. Os agentes que davam monitoramento não eram observadores científicos qualificados. Os indivíduos que eram alvo dos testes raramente estavam acessíveis além das primeiras horas do teste. Em numerosos casos, o indivíduo alvo do teste ficou doente por horas ou dias, e um efetivo acompanhamento era impossível. Outras experiências foram igualmente ofensivas. Por exemplo, viciados em heroína foram recrutados para participar de experiências com LSD em troca de um prêmio – heroína. Talvez o mais perturbador foi o fato de que a extensão das experiências com seres humanos era desconhecida. Os registros de todas essas atividades foram destruídos em janeiro de 1973, por orientação do então diretor da CIA, Richard Helms. E nenhum – nem um único indivíduo – pôde ser achado que lembrasse dos detalhes, nem o diretor da CIA que ordenou a destruição dos documentos, nem o funcionário responsável pelo programa, nem algum de seus associados. Nós acreditávamos que os registros, incompletos como eram, eram tão completos como podiam ser. (….) Esses novos registros foram descobertos pela agência em março. Sua existência não foi conhecida do Congresso até julho. Os registros revelam uma decididamente mais ampla série de experiências do que anteriormente pensávamos. Oitenta e seis universidades ou instituições estavam envolvidas. Novos casos de comportamento anti-ético foram revelados” (Relatório da audiência conjunta do Comissão de Inteligência e da Subcomissão de Saúde e Pesquisa Científica do Senado dos EUA, 03/08/1977, págs. 6/8) .

 manual de truques 

Em suma, somente nessas seis caixas, havia referência a 149 “projetos”. Havia, inclusive, um “manual de truques” para orientar os que administravam LSD e outras drogas a pessoas inocentes. Como disse um dos denunciadores do MKULTRA, Mark Zepezauer, autor de um livro sobre a CIA (“The CIA’s Greatest Hits”), apesar disso ser somente uma pequena parte em relação ao que foi destruído, “a história que sobreviveu já é demasiado sórdida”.

http://www.horadopovo.com.br/2003/dezembro/05-12-03/pag6b.htm

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Entre a foice, o martelo, a régua e o compasso: a grande rede maçônica de CUBA

Maçonaria à cubana: foice e martelo de um lado, régua e compasso do outro

Cuba é o único caso de país de regime marxista duro que tolera em todo o seu território uma importante sociedade secreta de fundo esotérico: a maçonaria. Hoje, na bela e conturbada ilha de Fidel e Raul, florescem nada menos que 318 lojas maçônicas, frequentadas abertamente por cerca de 30 mil membros inscritos. Números bastante altos para um país de população tão pequena. A santeria – culto afro-cubano primo-irmão dos nossos candomblé e umbanda – é, em Cuba, o único outro sistema de poder esotérico capaz de concorrer com a maçonaria em termos de existência razoavelmente livre e solta.

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Numa loja maçônica em Cuba o rito da corrente de força, representada pelas mãos dadas e os braços cruzados dos confrades, é símbolo evidente da união e do poder maçônicos. A confraria se prepara para desempenhar papel importante no futuro do país. Foto: Mauro D’Agati, La Repubblica.

Várias histórias correm na ilha, tanto nos meios maçônicos quanto fora deles, para explicar essa curiosa tolerância. Alguns dizem que Fidel e Raul são maçons, mais provavelmente o segundo. Outros afirmam que se trata de um dever de gratidão: durante a revolução cubana, Fidel Castro teria se refugiado numa loja maçônica, onde encontrou abrigo e proteção. Por isso, ele nunca fechou nem um único templo maçônico nem perseguiu os seus membros.

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O imponente Edifício Maçônico, epicentro das atividades da confraria em Cuba, localizado na Avenida Salvador Allende, no centro de Havana.

O fato é que, hoje, a Grande Loja de Cuba – epicentro das atividades da organização no país – é inteiramente regular e reconhecida pela maioria das grandes lojas maçônicas ao redor do mundo.

Fato incontestável, e que talvez tenha a ver com essa tolerância, é que a própria independência de Cuba foi alcançada em boa parte graças à ação de maçons franceses e cubanos. A maçonaria surgiu em Cuba em 1763, a partir de lojas militares inglesas e irlandesas. Quando os ingleses partiram, chegaram os franceses, aos milhares, fugidos da revolução no Haiti em 1791. A primeira loja realmente cubana foi o Templo das Virtudes Teológicas, fundada em Havana em 1804 pela Grande Loja da Luisiana.

O que torna única a presença da maçonaria em Cuba é o papel que ela desempenhou durante as três décadas de luta pela independência do jugo espanhol entre 1868 e 1895. Os três grandes líderes revolucionários – José Martí, Antonio Maceo e o “pai da nação” Carlos Manuel de Céspedes eram, todos eles, maçons. Historiadores dizem hoje que foi impossível para os revolucionários comunistas varreram para embaixo do tapete a afiliação maçônica desses três heróis nacionais. Mas a verdade é que pouco ou nenhum esforço foi feito nesse sentido. A imensa maioria dos presidentes cubanos, começando por Carlos Manuel de Céspedes, foram maçons.

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Ritual em loja maçônica localizada no interior de Cuba. No estandarte verde lê-se a data da sua fundação: 3 de dezembro de 1964.

Há outras características curiosas no comportamento da maçonaria no seio da sociedade cubana. Claro, ela é monitorada pelo governo que quase certamente mantém agentes e informantes infiltrados no interior das lojas. Mas são muito raras as intervenções abertas ou as limitações impostas aos cultos. Para manter esse confortável estado de coisas, os líderes maçons cubanos preferem não adotar posições de confronto com as políticas do regime. Apesar disso, eles recebem de braços abertos em seus quadros um grande número de dissidentes.

Após o esfacelamento da União Soviética – que era o maior parceiro comercial de Cuba – o governo cubano facilitou ainda mais as coisas para a maçonaria, autorizando-a a participar de cerimônias públicas e a abrir várias novas lojas. Todavia, o funcionamento regular de todas as lojas maçônicas ainda está sujeito à permissão por parte das autoridades, e a publicação de livros e panfletos maçônicos é bastante restrita pelos serviços de censura governamental.

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No alto do Edifício Maçônico, o símbolo da Régua e Compasso encimam um enorme globo terrestre.

A Grande Loja de Cuba, conhecida popularmente como o Edifício Maçônico, foi construída por volta de 1955 para as funções de Templo e sede central das entidades maçônicas de Cuba e chegou a albergar a Universidade Maçônica. Trata-se de um edifício imponente, incluído entre as obras arquitetônicas mais significativas da cidade de Havana. Encontra-se na atual Avenida Salvador Allende, no centro da capital cubana. Sem esquecer que o chileno Salvador Allende, amigo e aliado dos irmãos Castro, era maçom convicto.

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Um dos salões da Loja Maçônica na cidade de Banes.

Há pouco, a jornalista italiana Anna Lombardi, do jornal La Repubblica, conseguiu um feito inédito: visitar a Grande Loja de Cuba, em Havana, e vários outros templos maçônicos na ilha. Mas não apenas: Lombardi entrevistou líderes maçons cubanos e participou de rituais fechados da confraria. Seu saboroso relato foi publicado na revista “Il Venerdì di Repubblica”, edição nº 1301, de 22 de fevereiro.

Aqui segue o seu artigo:

AS LOJAS DE CUBA – Assim sobrevivem os maçons na ilha de Fidel

Por: Anna Lombardi (La Repubblica, Itália)

Um edifício numa aldeia perdida na Sierra Maestra, na porta os símbolos maçônicos do esquadro e compasso: dizem que em 1956 nela se esconderam Fidel Castro e seus barbudos apenas desembarcados do Granma. E foi exatamente no interior dessa velha loja maçônica de montanha que o futuro Líder Máximo criou aquele Movimento 26 de Julho que em poucos anos teria varrido para longe a ditadura de Fulgêncio Batista,inspirando-se nos ensinamentos de José Martí, o herói cubano pai do movimento independentista da ilha. Herói e maçom. Como outros revolucionários latino-americanos (e não apenas) do final do oitocentos: de Benito Juarez a Simon Bolívar. Dizem ser por isso que, uma vez no poder Fidel, em reconhecimento, tolerou a maçonaria: confraria misteriosa (os afiliados preferem defini-la “discreta”) que em todo o mundo compartilha ritos e símbolos naquilo que define “incansável busca da verdade”.

Claro, muitas histórias são contadas em Havana. Que a tolerância de Fidel para com a maçonaria deve-se ao seu afeto por um seu professor maçom. Que o padre Angel, famoso proprietário de terras, era um afiliado. Que se trata de um gesto de respeito a seu amigo Salvador Allende, também maçom. Até algumas teorias direitistas, das quais a Internet está cheia, segundo as quais o próprio Fidel é um iniciado. Ou, pelo menos, o seu irmão Raul…

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Diploma de afiliação à Loja Minerva, uma das mais importantes de Cuba.

Qualquer que seja o segredo que se esconde por trás da complacência dos Castro em relação à confraria, é certo que a cubana é a única maçonaria tolerada por um regime totalitário. Foram os franceses em fuga da revolta dos escravos no Haiti em 1791 a levá-la para Cuba.

Mas já em 1859 Cuba se orgulhava de possuir uma loja autônoma, a mesma que opera até hoje. Ela escapou inclusive à homologação cultural pós revolução que aconteceu em 1959, embora alguns “irmãos” tivessem proposto a sua dissolução, sob a alegação de que “no novo contexto político certos ideais não tinham mais razão de existir”. O Grão Mestre daquela época fugiu para a Flórida com todo o seu estado-maior, e a partir de Miami passou a lançar anátemas sobre seus confrades que permaneceram na ilha, desencorajando-os de eleger um novo chefe.

Flechas que caíram ao mar: hoje, na ilha, existem 318 lojas frequentadas por mais de trinta mil afiliados. O número tem aumentado ultimamente: “Depois da queda do Muro de Berlim” contou um ex grão mestre ao New York Times “muitos jovens vieram a nós em busca de respostas que o Estado não tem condições de dar. Eles nos identificam como exemplo social: não discutimos política nem religião”.

Diz Mark Falcoff, experto em América Latina da revista Foreign Affairs, que foi exatamente esse fator que permitiu à maçonaria cubana manter sua autonomia. Evitando a política, a organização pode discutir temas “incômodos” como o aborto e a globalização. E pode acolher em suas fileiras muitos dissidentes do regime: dos 75 presos durante a Primavera Negra, a onda repressora de 2003 que mirou jornalistas, sindicalistas e outros opositores, doze eram maçons. “Mas a Loja não foi envolvida no caso”, contou um deles, o jornalista Jorge Olivera ao jornal Chicago Tribune.

Oficialmente, o governo elogia a maçonaria por estar ligada aos momentos mais nobres da história cubana. Mas a Grande Loja precisa de qualquer modo pedir permissão para qualquer coisa: desde depor uma coroa de flores aos pés da estátua de José Martí até a publicação de um simples manual ritual. Em privado, seus membros se lamentam da presença de infiltrados, fazendo aceno a ameaças veladas quando um estrangeiro frequenta um tanto em excesso a Loja. Mas todos pensam que, no futuro, a maçonaria terá um papel importante no processo de reconciliação das diversas almas do país.

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Loja maçônica Verdad, na cidade cubana de Matanzas.

Certo, nem todas as lojas gozam de boa saúde. Muitas, sobretudo as que estão muito distantes da capital, estão em ruínas. Mas todas citam o Grande Templo Nacional Maçônico, um edifício de onze andares coroado por um esquadro e compasso, situado no número 508 da Avenida Salvador Allende, em Havana. Quando foi inaugurado, em 1955, era um dos mais modernos de Cuba. E um dos mais ricos, como testemunham ainda hoje os pequenos sofás de couro azul ou as colunas encimadas por globos luminosos. É aqui que acontecem os ritos coletivos. É aqui, entre essas paredes, medalhas e espadas, que o Grão Mestre e o Grão Secretário mantêm os seus escritórios. Há também um museu, uma biblioteca aberta ao público e um asilo que abriga os maçons idosos e administra as doações – sobretudo medicamentos – enviadas pelas lojas americanas e europeias.

Nos subterrâneos se localiza a escura “câmera de reflexão”: nela, em companhia de esqueletos e outros símbolos da vanitas (vaidade) humana, o aspirante a iniciado começa o seu aprendizado. “Morre” para depois renascer para uma nova vida no interior da comunidade. Um ritual simbólico que, no país da santeria, o culto sincrético que une elementos africanos a elementos católicos, foi enriquecido com passagens ainda mais macabras.

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Monumento funerário maçônico em cemitério de Havana.

Mas pode ter sido exatamente esse mix o fator que suscitou, ulteriormente, o favor dos Castro. Os irmãos sempre usaram os símbolos da santeria a seu favor. Como aconteceu em 1959 – uma semana depois da fuga de Batista – quando Fidel, durante um comício, fez com que duas pombas brancas – símbolos de Obatalá, versão local de Cristo – pousassem sobre seus ombros.

Santeria e maçonaria, em resumo, para obter consenso na Cuba pós Revolução. A primeira, útil para fascinar a população afro-americana, pouco representada no regime. A segunda, útil para garantir a simpatia da esquerda latino-americana. Foice e martelo de um lado, régua e compasso do outro.

EUA estão ajudando a reconstruir o Império Otomano

Robert E. Kaplan
Todas essas intervenções militares dos Estados Unidos aconteceram em uma área que foi parte do Império Otomano, e onde um regime secular foi substituído por um islâmico. Até agora, a política da Alemanha de manter escondido o seu papel de liderança na tentativa de reconstituir o Império Otomano foi bem sucedida.
Desde meados da década de 1990, os Estados Unidos intervieram militarmente em vários conflitos armados na Europa e no Oriente Médio: lançar bombas a Sérvia em apoio ao regime muçulmano de Izetbegovic na Bósnia em 1995, lançar bombas novamente em apoio a guerrilheiros muçulmanos em 1999 lançar bombas sobre o regime líbio de Kadafi em apoio aos rebeldes em 2010. Para os americanos, a justificação para cada intervenção foi motivada por questões humanitárias: para proteger muçulmanos bósnios dos sérvios genocidas, para proteger muçulmanos de Kosovo dos sérvios genocidas, e para proteger os líbios do ditador assassino Muamar Kadafi.

Outras desculpas para as intervenções também foram utilizadas: para ganhar uma posição estratégica para os Estados Unidos nos Balcãs, para derrotar o comunismo na Iugoslávia, para demostrar aos muçulmanos do mundo que os Estados Unidos não são anti-muçulmanos, para redefinir o papel da OTAN no período pós-Guerra Fria, entre outras.

Todas essas intervenções militares dos Estados Unidos aconteceram em uma área que foi parte do Império Otomano. Em cada uma delas, o regime secular acabou substituído por um islâmico, a favor da lei islâmica e da criação de um califado mundial. Os países que passaram pela “Primavera Árabe” a partir de 2010 sem a ajuda da intervenção militar americana, Tunísia e Egito, também foram parte do Império Otomano, e também acabaram governados por regimes islâmicos.

Nos Estados Unidos, a maioria das discussões sobre os conflitos militares na década de 1990 nos Balcãs e sobre a “Primavera Árabe” entre 2010 e 2012 não mencionam que as áreas envolvidas foram parte do Império Otomano, inclusive a Turquia, as áreas habitadas por muçulmanos em torno do Mediterrâneo, o Iraque, as regiões costeiras da Península Árabe e partes dos Balcãs. Nas áreas que passaram pela Primavera Árabe, o papel da Turquia todas as vezes foi de apoiar os rebeldes e rapidamente reconhecê-los como um governo legítimo do país em revolta.

E os líderes turcos conectam os conflitos na Bósnia, a “Primavera Árabe” e o Império Otomano. Harold Rhode, um americano especialista em Turquia, noticiou:
Os recentes [2011] discursos de Erdogan [presidente da Turquia] após sua vitória eleitoral colocam em evidência suas verdadeiras intenções com relação à política externa da Turquia. Segundo ele, sua vitória é tão importante em Ancara quanto o é na capital da Bósnia e Herzegovina, Sarajevo, que era uma importante cidade otomana nos tempos do império; que a festa de sua vitória foi tão importante em uma grande cidade como Izmir, na costa oeste de Anatólia, quanto em Damasco, e tão importante em Istambul quanto em Jerusalém…

Ao dizer que essa vitória é tão importante em todas as ex-cidades otomanas, Erdogan aparentemente se vê na tentativa de recuperar na sua totalidade o passado otomano da Turquia.

O fato de que desde 1990 cada país da Europa e do Oriente Médio que sofreu intervenção militar americana em um conflito militar interno ou em uma “Primavera Árabe” acabou com um governo dominado por islâmicos da Irmandade Islâmica ou pela al-Qaeda se encaixa bem na ideia de que esses eventos representam um retorno ao Império Otomano. Além de ser um império político governando um território e sua população, o Império Otomano alegou ser um califado com domínio espiritual sobre todos os muçulmanos, dentro e fora das fronteiras. Embora possa parecer estranho no início, a ideia de promover a renovação do Império Otomano em duas frentes: quebrar a estrutura política pós-otomana e promover um califado que islâmicos dizem desejar, parece bastante razoável.

Assim como os conflitos nos Balcãs na década de 1990 e a “Primavera Árabe” considerada em perspectiva histórica sugere que a Turquia pode estar tentando recriar seu antigo império, um exame do império turco em uma perspectiva histórica sugere uma possível parceria entre Alemanha e Turquia no projeto, considerando que, desde sua criação em 1870, a Alemanha viu a Turquia com seu império como seu mais valioso cliente e aliado. Na visão dos líderes da Alemanha, a Turquia era controlável por meio de uma combinação de intercâmbio comercial e presentes como oportunidades educacionais, disposição de conhecimentos técnicos e administrativos, e também propinas a autoridades turcas. A Alemanha via a influência da Turquia como um meio de influenciar os muçulmanos ao redor do mundo para seus próprios interesses. Como mostrou o estudioso alemão Worfgang Schwanitz, durante a 1º Guerra Mundial a Alemanha empregou o califado turco para promover a jihad (tumultos e rebeliões) em áreas onde muçulmanos eram governados por seus inimigos, que eram Rússia, da França, da Inglaterra e da Sérvia.

No entanto, nos cerca de 50 artigos reunidos em minha pesquisa sobre a consciência de parte dos americanos sobre uma possível conexão turca com a “Primavera Árabe”, não encontrei uma única menção a “Alemanha”. Somente em um link em um desses artigos, que levava a um artigo sobre a Corte Penal Internacional (CPI) que, com sua acusação a Muamar Kadafi e a emissão de um mandado de prisão contra ele, forneceu a base “legal” que legitimou os bombardeios da OTAN contra a Líbia, que deu a vitória aos rebeldes e terminou o regime de Kadafi, nele encontrei uma menção à Alemanha. Do artigo, “A Lawless Global Court” (Uma Corte Global sem Leis), escrito por John Rosenthal (Policy Review nº 123, 1º fev. 2004), descobre-se que a CPI é um projeto iniciado, promovido e até certo ponto financiado pela Alemanha. Levando isso em consideração, a ideia de que a CPI serve aos propósitos da Alemanha é senso comum. Por meio da conexão da Corte, a promoção alemã da “Primavera Árabe” fica clara. No entanto, quase nunca é mencionada. Esse silêncio exige uma explicação.

Mais tarde, encontrei uma referência explícita ao papel da Alemanha nisso tudo, principalmente na guerra contra o regime de Assad na Síria, no artigo de John Rosenthal German Intelligence: al-Qaeda all over Syria (Inteligência Alemã: al-Qaeda em Toda a Síria) no site do Asia Times, que noticia que o governo alemão apoia os rebeldes e seu braço político, o Conselho Nacional Sírio, contra Assad; que o governo alemão manteve em sigilo “por questões de interesse nacional” o conteúdo de vários relatórios da agência de inteligência alemã BND de que o massacre de civis na cidade síria de Houla em 25 de maio de 2012, em que Assad foi considerado responsável, foi na verdade cometido por forças rebeldes, e que “o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha está trabalhando com representantes da oposição síria para desenvolver “planos concretos” para uma “transição política” na Síria após a queda de Assad. Até agora, a política da Alemanha de manter escondido o seu papel de liderança na tentativa de reconstituir o Império Otomano parece ter sido bem sucedida.

Cada ação militar dos Estados Unidos na Europa e no Oriente Médio desde 1990, no entanto, com exceção do Iraque, seguiu um padrão evidente: Primeiro houve um conflito armado dentro do país onde a intervenção iria acontecer. A mídia americana fez uma grande cobertura do conflito. Os “bonzinhos” na história eram os rebeldes. Os “vilões”, que seriam atacados pelas forças militares americanas, eram brutalmente antidemocráticos, perpetradores de crimes de guerra, guerras contra a humanidade e genocídios. Figuras públicas prestigiosas, ONGs, entidades judiciais e quase judiciais e organizações internacionais clamavam por apoio aos rebeldes e ataque ao regime. Próximo passo, o presidente americano ordenava um apoio logístico e fornecia armas aos rebeldes. Finalmente, o presidente americano ordenava um ataque militar sob proteção da OTAN em apoio aos rebeldes. O ataque geralmente consiste em um bombardeio aéreo, o atual equivalente das canhoneiras dos séculos XIX e XX, que podiam atacar cidades costeiras de países militarmente fracos sem medo de retaliação. O resultado final de todas as intervenções americanas foi a substituição do governo secular por um regime islâmico em uma área que foi parte do Império Otomano.
Por que o governo dos EUA promoveria ativamente objetivos alemães, como a destruição da Iugoslávia (a Alemanha invadiu a Sérvia nas duas guerras mundiais) e a recriação do Império Otomano, é uma questão que precisa ser respondida.
Robert E. Kaplan é historiador, com doutorado pela Universidade de Cornell, especializando em Europa moderna.

Música e Moralidade – Roger Scruton

Música e Moralidade, Roger Scruton
por Hugo Medeiros (Notas) em Domingo, 19 de maio de 2013 às 16:04

“Platão continua sendo o nosso melhor crítico de rock.”

 

“Os caminhos da poesia e da música não são alterados em qualquer lugar sem uma mudança nas leis mais importantes da cidade.” Assim escreveu Platão na República (4.42c). A música, para Platão, não era um divertimento neutro. Poderia expressar e estimular a virtude – nobreza, dignidade, temperança, castidade. Mas também poderia expressar e estimular o vício – sensualidade, agressividade, indisciplina.

 

A preocupação de Platão não era muito diferente da de um homem moderno preocupado com o caráter moral, e o efeito moral, do Death Metal, digamos, ou do kitsch musical do gênero de Andrew Lloyd Webber. “Os nossos filhos deviam estar ouvindo essas coisas?” é a pergunta na mente dos adultos modernos, assim como “a cidade deveria permitir isso?” era a questão na mente de Platão.  Claro, há muito tempo desistimos da ideia de proibir certos tipos de música através de leis. No entanto, é ainda comum acreditar que a música tem – ou pode ter – um caráter moral, e que o caráter de uma obra ou de um tipo de música pode “contagiar” de alguma maneira seus devotos.

 

Nós não proibimos tipos de música através de leis, mas nós deveríamos lembrar que nossas leis são feitas por pessoas que têm preferências musicais; Platão pode estar certo, mesmo em relação a uma democracia moderna, sobre as mudanças da cultura musical seguirem de mãos dadas com as mudanças das leis, uma vez que as mudanças das leis refletem muitas vezes as pressões da cultura. Não há dúvida de que a música popular, hoje, goza de um status superior ao de qualquer outro produto cultural. Pop stars são os primeiros entre as celebridades, são idolatrados pelos jovens, tomados como modelos, cortejados por políticos, e em geral dotados de uma aura mágica que lhes confere poder sobre as multidões. É certamente possível, portanto, que algo de suas mensagens vai refletir nas leis aprovadas pelos políticos que os admiram. Se a mensagem é sensual, egocêntrica, e materialista (o que geralmente é), então nós não devemos esperar que nossas leis se dirijam a nós de um patamar superior ao conteúdo de tal mensagem.

 

Contudo, a nossa cultura é “sem julgamentos”. Criticar a preferência de outra pessoa, seja na música, entretenimento, ou estilo de vida, é admitir que algumas preferências são superiores a outras. E isso, para muitas pessoas, é ofensivo. Quem é você, respondem eles, que julga a preferência dos outros? Os jovens, em particular, sentem isso, e uma vez que são os jovens os principais devotos da música pop, isso coloca um obstáculo formidável no caminho de quem se compromete a criticar o pop numa universidade. Isso se dá especialmente desta maneira se a crítica é formulada em linguagem platônica, como uma análise e condenação dos vícios morais exemplificados por um tipo de música. Em face disso, um professor pode ser tentado a desistir do problema do julgamento, e aceitar que qualquer coisa serve, que todas as preferências são igualmente válidas, e que, na medida em que a música é um objeto de estudo acadêmico, não se trata de crítica, mas de análises técnicas e conhecimentos práticos que devem ser transmitidos. De fato, essa é a linha que parece ser seguida pelos departamentos acadêmicos de musicologia, pelo menos no mundo anglófono.

 

A QUESTÃO DO CARÁTER MORAL da música é também complicada pelo fato de que a música é apreciada de muitas maneiras diferentes: as pessoas dançam músicas, elas trabalham e conversam ao som de músicas de fundo, elas executam e ouvem músicas. As pessoas se empolgam para dançar uma música que não suportariam ouvir – uma experiência bastante normal nos dias de hoje. Você pode conversar ouvindo Mozart, mas não ouvindo Shoenberg; você pode trabalhar ouvindo Chopin, mas não ouvindo Wagner. E às vezes se argumenta que o contorno melódico e rítmico da música pop serve não apenas para ser ouvido, mas também para ser ouvido de maneira alta, e que estimula a necessidade do pop enquanto música de fundo. Alguns psicólogos se perguntam se essa necessidade segue o padrão dos vícios; críticos mais filosóficos como Theodor Adorno levantam questões de natureza profunda, como saber se o ouvido humano não mudou inteiramente sob o impacto do jazz e de seus sucessores musicais, e se a música pode ser para nós jamais o que foi para Bach ou Mozart.

 

Adorno atacou o que ele chamou de “regressão da audição”, que ele acreditava ter infectado toda a cultura da América moderna.  Ele considerou a cultura da audição como um recurso espiritual da civilização ocidental. Para Adorno, o hábito de ouvir composições de grande alcance, em que os temas são subordinados a um amplo desenvolvimento melódico, harmônico e rítmico, está ligado à capacidade de viver para além do momento, de transcender a busca de uma gratificação imediata, para pôr de lado as rotinas da sociedade consumista, com sua constante busca pelo “fetiche”, e colocar os verdadeiros valores no lugar dos desejos fugazes. E há, aqui, algo convincente que precisa ser resgatado da crítica imoderada, e demasiado politizada, que Adorno faz a respeito de praticamente tudo que ele encontrou nos Estados Unidos. Mas Adorno nos lembra de que é muito difícil criticar um tipo de música sem colocar sob julgamento a cultura a que ele pertence. Os estilos musicais não vêm em pacotes fechados, sem relação com a vida humana em torno.  E quando um determinado tipo de música nos rodeia em espaços públicos, quando invade cada café, bar e restaurante, quando seu estrondo nos atinge ao trânsito dos carros e nos respinga das torneiras abertas dos rádios e iPods em todo o planeta, o crítico pode ficar como o apócrifo Rei Canuto diante de uma maré irrefreável, proferindo gritos inúteis de indignação.

 

Nós deveríamos, então, desistir da música pop, considerando-a como além da crítica, e a cultura expressa nela com um fato da vida? Esse parece ser o ponto de vista entre os musicólogos. A música pop, dizem-nos, existe para ser dançada, e aqueles que a julgam com normas de salão de concertos, que é um lugar onde se escuta em silêncio, perderam simplesmente a noção. A essência do pop não é a forma, a estrutura, ou as relações musicais abstratas. Trata-se de ritmo, e o ritmo é algo para você se mover, não para você ouvir.

 

Essa é certamente uma resposta justa para as formas mais truculentas da crítica, mas levanta uma questão de profunda importância no estudo da música, que é o da natureza do ritmo. Muitos dos tipos de pop de maior sucesso hoje (Dj de música, por exemplo, ou produtos sintéticos como “Alice Pratice”, de Crystal Castles) são gerados em computador. Em tais músicas, você não ouve um ritmo, mas um tempo cortado por um fatiador eletrônico. Ritmo não é a mesma coisa que mensuração. Não se trata simplesmente de dividir o tempo em unidades repetíveis. E sim de organizar o som no movimento, de modo que uma nota convida a próxima ao seu espaço vago. Isso é exatamente o que se passa na dança – dança de verdade, quero dizer. E as queixas que possam ser feitas contra a pior forma de pop se aplicam às desastrosas tentativas de dança que normalmente são produzidas por ela – esforços que não envolvem o controle do corpo, nenhuma tentativa de dançar com outra pessoa, na melhor das hipóteses apenas uma tentativa de dançar para ele ou para ela, fazendo movimentos que são cortados e atomizados como os sons que os provocam.

 

UM CONTRASTE SIMPLES É FORNECIDO pela dança escocesa eigthsome reel. Nada poderia ser mais metricamente regular do que isso, mas há certo sentido [ou, nexo] que pode ser ouvido na transição das seções, como os gestos de mudança – às vezes as mãos estão no ar, às vezes ao redor da cintura,  às vezes as pernas se cruzam livremente, outras vezes tendem a pisar com força. A melodia é ligeiramente variada de acordo com cada mudança de parceiro e a animação aumenta com o encerramento da linha melódica.

O ritmo no Heavy Metal, ou na música de DJ, é atirado a você. A diferença entre a e com é uma das mais profundas diferenças que conhecemos, e se manifesta em todos os nossos encontros com outras pessoas – notadamente nas conversas e nas interações sexuais. E este “estar junto” da dança escocesa reflete o fato de que ela é uma dança social, em que as pessoas se movimentam conscientemente umas com as outras. A necessidade humana por esse tipo de dança ainda existe em nós, e explica a atual mania por salsa, bem como o constante reaparecimento da dança de salão.

O Metal é atirado a seus devotos, e a perda de melodia da linha vocal enfatiza isso. Não que a melodia esteja totalmente ausente, é claro; ela é permitida ao solo de guitarra, que é frequentemente uma reflexão pungente sobre sua própria solidão – o espírito de uma comunidade que foi varrido desse mundo cruelmente envernizado. O mundo dessa música é aquele em que as pessoas falam, gritam, dançam e sentem, sem fazer essas coisas umas com as outras. Você dança Heavy Metal balançando a cabeça, batendo e empurrando as pessoas no meio da multidão. Tais danças não estão realmente abertas a pessoas de todas as idades, mas confinadas ao publico jovem e sexualmente disponível. Claro, não há nada que impeça os velhos e engelhados de participar disso, mas vê-los nessa situação é constrangedor, tanto mais quando eles mesmos parecem não o saber.

 

Em outras palavras, o que parece ser ritmo, e o primeiro plano do ritmo, é frequentemente a ausência de ritmo, um abafamento do ritmo pela batida. O ritmo, divorciado da organização melódica, se torna inerte; perde seu valor enquanto gesto e, consequentemente, perde a plasticidade do gesto. As baladas mecânicas e as baladas sintetizadas em computador são colapsadas em efeitos sonoros e deixam de expressar o sorriso humano que se pode notar em toda verdadeira música de dança, desde as bandas de tambores do Caribe até as valsas de Johann Strauss.

 

A melodia tem sido o princípio fundamental da canção popular tradicional; ela torna possível memorizar a letra e cantar junto com a canção. Toda a tradição folclórica contém um repertório de canções e melodias construídas a partir de elementos repetíveis. O American songbook [canções populares americanas mais célebres do século XX] é similar, embora se utilize da nova linguagem melódica e harmônica que surgiu do jazz, e muitas delas têm sofrido para se tornarem conhecidas em todo o mundo. Por outro lado, existe muito pouco, no pop contemporâneo emergente, que mostre, ou invenção melódica, ou mesmo alguma consciência de por que a melodia importa – isto é, uma consciência de seu sentido social e de sua capacidade de dar substancia musical a uma canção de estrofes. Inúmeras canções pop nos dão apenas variações de frases feitas, diatônicas e pentatonicas, unidas não por algum poder intrínseco de junção, mas somente por meio de laboriosas medições de fundo e por uma sequencia de acordes banal.

 

ISSO ME TRÁS DE VOLTA AO ATAQUE de Adorno à “regressão da audição”. Isso descreve com precisão a maneira pela qual o pop contemporâneo – desde Crystal a Lady Gaga – é recebido por seus devotos. Eu não estou falando das letras. Eu estou falando da experiência musical. É correto, sem dúvida, falar de um novo tipo de audição, talvez um tipo de audição que não é audição absolutamente, já que não há melodia de que se falar, já que o ritmo é feito por maquinas, e o único convite à dança é apenas um convite para se dançar consigo mesmo. E é fácil imaginar um tipo de pop que não é assim: um pop que é com o ouvinte e não nele ou a ele. Não há necessidade de se voltar a Elvis e Beatles para encontrar exemplos.

 

Confrontados com a cultura da juventude, somos induzidos a não fazer julgamentos. Mas não fazer julgamentos já é fazer um tipo de julgamento: isso sugere que realmente não importa o que você ouça ou dance, e que não há distinção moral entre os vários hábitos de escuta. Essa é uma posição moralmente carregada, e que é contrária ao senso comum. Sugerir que pessoas que vivem com uma pulsação métrica como constante pano de fundo de seus pensamentos e movimentos estao vivendo da mesma maneira, com o mesmo tipo de atenção e o mesmo padrão de desafios e recompensas que aqueles que conhecem a música apenas para ouvi-la, limpando suas mentes, entretanto, de todas as outras ideias – tal sugestão é certamente implausível.

 

Do mesmo modo, sugerir que aqueles que dançam de maneira solipsista, estimulados pela música Heavy Metal ou Indie, compartilham uma forma de vida com aqueles que dançam, quando dançam, em formação disciplinada, é dizer algo igualmente implausível. A diferença não está meramente no tipo de movimentos que são realizados; é uma diferença que está no valor social, e no valor relativo empregado ao estar com o seu vizinho, em vez de sobre ou contra ele. A batida externalizada do pop é empurrada a nós. Você não pode facilmente se mover com isso, mas você pode se submeter a isso. Quando a música estruturada por esta espécie de movimento externo é tocada numa dança, isso automaticamente atomiza as pessoas na pista de dança. Eles podem dançar uns com os outros, mas apenas penosamente uns com os outros. E a dança não é algo que você faz, mas algo que lhe acontece – um movimento ritmado no qual você está suspenso.

 

Quando você é controlado por um ritmo externo e mecanizado, sua liberdade é subjugada, e é difícil então se mover de modo a sugerir uma relação pessoal com o parceiro. A relação eu-tu na qual a sociedade humana é construída não tem lugar na pista de dança da discoteca. Platão estava sem dúvida correto, portanto, ao pensar que quando gastamos nosso tempo com música nós estamos educando nosso caráter. Pois estamos conhecendo um aspecto da nossa encarnação enquanto seres livres.

 

E ele estava certo ao concluir que aquela encarnação pode ter formas virtuosas ou viciosas. Para dar apenas um exemplo, existe uma profunda diferença, em matéria de conquistas amorosas, entre a modéstia e a lascívia. A modéstia trata o outro como alguém com quem você está. A lascívia é apontada para o outro, mas certamente não está com ele ou com ela, já que é uma tentativa de impedir a liberdade do outro para retirá-la. E é muito claro que esses traços de caráter são exibidos na música e na dança. O pensamento de Platão era que se você mostra luxúria nas danças que você mais gosta, então você está próximo de adquirir o hábito. Há uma grande quantidade de músicas populares melodiosas, e uma abundância de músicas populares com as quais alguém pode cantar junto e dançar de maneira sociável. Tudo isso é óbvio. No entanto, há cada vez mais, dentro do pop, outro tipo de prática em conjunto, em que o movimento não está mais contido na linha musical, mas exportado a um lugar fora dele, para um centro de pulsação que não exige que você o ouça, e sim que você se submeta. Se você se submete, as características morais da música desaparecem por trás da emoção; se você ouve, no entanto, e ouve criticamente como eu tenho sugerido, você vai discernir aquelas qualidades morais, que são tão vívidas quanto a nobreza na Segunda Sinfonia de Elgar ou o horror em Erwartung de Schoenberg. E assim você pode ser levado a concordar com Platão que se essa música for permitida, então as leis que nos governam vão mudar.

 

“O ódio aos cristãos deve ser do fundo do coração”, diz erudito muçulmano

Abdullah Bard, licenciado pela “prestigiada” Universidade de Al-Azhar e professor de exegese do Islã, declarou que os cristãos produzem um profundo nojo. E adiantou que os muçulmanos devem odiá-los do fundo do coração.

O erudito egípcio Abdullah Badr, uma eminência em exegese islâmica, durante uma conferência realizada no final de março, afirmou que o sentido autêntico da doutrina “wala bara’awa” (amor e ódio) nada mais é que, de acordo com o Corão, amar seus irmãos de fé e odiar os infiéis. Ele fez questão de ressaltar que este ódio deve ser profundo e sincero, deve ser do fundo do coração, não pode ser apenas uma hipócrita manifestão, mas um repúdio completo e público. O “grande erudito” usou uma ocasião em que humilhou publicamente um hoomem de quem tinha comprado uma propriedade ao descobrir que era cristão.

“Odiará ao teu próximo com toda a tua alma com todo o teu ser”, esse parece ser o lema de Abdullah que para jusrificar não precisou de muito trabalho, apenas buscou alguns versículos do Corão:

5.51 . “Ó fiéis, não tomeis por confidentes os judeus nem os cristãos; que sejam confidentes entre si. Porém, quem dentre vós os tomar por confidentes, certamente será um deles; e Deus não encaminha os iníquos.”

2.104 . “Ó fiéis, não digais (ao Profeta Muhammad): “”Raina””, outrossim dizei: “”Arzurna”” e escutai. Sabei que os incrédulos sofrerão um doloroso castigo.”

5.33 . O castigo, para aqueles que lutam contra Deus e contra o Seu Mensageiro e semeiam a corrupção na terra, é que sejam mortos, ou crucificados, ou lhes seja decepada a mão e o pé opostos, ou banidos. Tal será, para eles, um aviltamento nesse mundo e, no outro, sofrerão um severo castigo.

9.23 . “Ó fiéis, não tomeis por confidentes vossos pais e irmãos, se preferirem a incredulidade à fé; aqueles, dentre vós, que os tomarem por confidentes, serão iníquos.”

9.30 . “Os judeus dizem: Ezra é filho de Deus; os cristãos dizem: O Messias é filho de Deus. Tais são as palavras de suas bocas; repetem, com isso, as de seus antepassados incrédulos. Que Deus os combata! Como se desviam!”

4.56 . Quanto àqueles que negam os Nossos versículos, introduzi-los-emos no fogo infernal. Cada vez que a sua pele se tiver queimado, trocá-la-emos por outra, para que experimentem mais e mais o suplício. Sabei que Deus é Poderoso, Prudentíssimo.

Abdullah, jurou por Alá que cortará a língua e lançará aos cachorros de quem ofender Maomé e sua doutrina. Além disso chamou de puta a atriz Elham Shahin, e ameaçou torcer seu pescoço. O prestigiado clérigo também já declarou que os cristãos devem desaparecer do Egito.

FONTE: DE OLHO NA JIHAD

O Brasil tem guerrilha

ISTOÉ entra na base da Liga dos Camponeses Pobres, um grupo armado com 20 acampamentos em três Estados, que tem nove vezes mais combatentes que o PCdoB na Guerrilha do Araguaia e cujas ações resultaram na morte de 22 pessoas no ano passado

 

O barulho de dois tiros de revólver quebrou o silêncio da noite na pacata comunidade rural de Jacilândia, distante 38 quilômetros da cidade de Buritis, Estado de Rondônia. Passava pouco das 22 horas do dia 22 de fevereiro quando três homens encapuzados bloquearam a estrada de terra que liga o lugarejo ao município e friamente executaram à queima-roupa o agricultor Paulo Roberto Garcia. Aos 28 anos, ele tombou com os disparos de revólver calibre 38 na nuca. Dez horas depois do crime, o corpo de Garcia ainda permanecia no local, estirado nos braços de sua mãe, Maria Tereza de Jesus, à espera da polícia. Era o caçula de seus três filhos. Um mês depois do assassinato, o delegado da Polícia Civil de Rondônia que investiga o caso, Iramar Gonçalves, concluiu: “Ele foi assassinado pelos guerrilheiros da LCP.”

A sigla a que o delegado se refere, com estranha naturalidade, quer dizer Liga dos Camponeses Pobres, uma organização radical de extrema esquerda que adotou a luta armada como estratégia para chegar ao poder no País através da “violência revolucionária”. Paulo Roberto foi a mais recente vítima da LCP, que, sob a omissão das autoridades federais e o silêncio do resto do Brasil, se instalou há oito anos na região e, a cada hora, se mostra mais violenta. Apenas em 2007, as operações do grupo produziram 22 vítimas – 18 camponeses ou fazendeiros e quatro guerrilheiros. Amplamente conhecidos em Rondônia, os integrantes da LCP controlam hoje 500 mil hectares. Estão repartidos em 13 bases que se estendem de Jaru, no centro do Estado, às cercanias da capital Porto Velho, se alongando até a fronteira com a Bolívia, região onde eles acabaram de abrir uma estrada. O propósito dos guerrilheiros seria usá-la como rota de fuga, mas, enquanto não são incomodados nem pela Polícia Federal nem pelo Exército, a trilha clandestina está sendo chamada de transcocaineira – por ela, segundo a polícia local, passam drogas, contrabando e as armas da guerrilha.

ÁREA PROIBIDA

A nenhuma dessas colônias o poder público tem acesso. Sob o manto da “revolução agrária”, a LCP empunha as bandeiras do combate à burguesia, ao imperialismo e ao latifúndio, enquanto seus militantes assaltam, torturam, matam e aterrorizam cidades e zonas rurais nessas profundezas do Brasil. Encapuzados, armados com metralhadoras, pistolas, granadas e fuzis AR-15, FAL e AK-47 de uso exclusivo das Forças Armadas, eles já somam quase nove vezes mais combatentes que os 60 militantes do PCdoB que se embrenharam na Floresta Amazônica no início dos anos 70 na lendária Guerrilha do Araguaia. “A Colômbia é aqui”, diz o delegado Gonçalves, numa referência às Farc.

 

NO CORAÇÃO DA GUERRILHA Armado de AR-15, policial entra em território dominado pela LCP e uma barreira que proíbe o acesso ao centro de treinamento militar. “Não dá para observá-los, mas estamos sob sua mira”, diz à reportagem de ISTOÉ um sargento da PM de Rondônia

A reportagem de ISTOÉ entrou nessa área proibida. No distrito de Jacinópolis, a 450 quilômetros de Porto Velho, bate o coração da guerrilha. Segundo o serviço secreto da Polícia Militar de Rondônia, é ali que está o campo de treinamento. “Nem com 50 homens armados eu tenho coragem de entrar na invasão deles”, admite o delegado. Caminhar pelas hostis estradas enlameadas é como pisar em solo minado. A todo momento e com qualquer pessoa que se converse, o medo de uma emboscada é constante. Os militantes adotam as táticas de bloqueio de estradas e seqüestro das pessoas que trafegam pela área sem um salvo-conduto verbal liberado pela LCP. “É a forma de combater as forças inimigas”, escreveram eles num dos panfletos que distribuíram na região. “Esses bandoleiros foram muito bem treinados pelos guerrilheiros das Farc”, revela o major Enedy Dias de Araújo, ex-comandante da Polícia Militar de Jaru, cidade onde fica a sede da Liga.

Para se chegar à chamada “revolução agrária”, dizem os documentos da LCP aos quais ISTOÉ teve acesso, a principal ação do grupo é pôr em prática a chamada “violência revolucionária”. E, para os habitantes locais, essa tem sido uma violência fria e vingativa. No caso da sua mais recente vítima, o que a LCP fez foi uma execução sumária, após um julgamento interno suscitado pela desconfiança sobre o real propósito da presença de Paulo Roberto Garcia na região. “Eles acreditam que o rapaz era um agente infiltrado como agricultor e não tiveram dúvida em matálo”, disse o delegado. Dos 22 mortos de 2007, quatro eram fazendeiros e 14 eram funcionários das fazendas, que a liga camponesa classifica como paramilitares. Na parte dos guerrilheiros, quatro foram enterrados – assassinados em circunstâncias distintas por jagunços das fazendas da região.

Além de matar, a LCP é acusada pela polícia de incendiar casas, queimar máquinas e equipamentos e devastar a Floresta Amazônica. Os moradores da comunidade onde vivia Garcia não sabem o que é luta de classe, partido revolucionário e muito menos socialismo. Mas eles sabem muito bem que, desde a chegada da LCP naquelas bandas, a morte matada está vencendo a morte morrida.

ALERTA NA SELVA

Só quem consegue transitar livremente no território da guerrilha são os caminhões dos madeireiros clandestinos, que pagam um pedágio de R$ 2 mil por dia à LCP para rodar nas estradas de terras controladas pela milícia. Em troca do pedágio, os guerrilheiros dão segurança armada aos madeireiros para que eles possam roubar árvores em propriedades privadas, áreas de conservação e terras indígenas. São terras que a LCP diz ter “tomado” – e o verbo tomar, no lugar de “invadir” ou “ocupar”, como prefere o MST, não é mera semântica, mas uma revelação do caráter belicoso do grupo. “A falha é do Exército brasileiro, que deixa esses terroristas ocuparem nossa área de fronteira”, acusa o major Josenildo Jacinto do Nascimento. Comandante do Batalhão de Polícia Militar Ambiental, Nascimento sente na pele o poder e a arrogância desse bando armado.

No ano passado, eles derrubaram uma base militar da Polícia Ambiental dentro de uma unidade de conservação e seqüestraram seus soldados. “A tática utilizada pela LCP para as emboscadas é certeira”, admite um dos militares, mantido preso por sete horas. “Como são estradas de terras, no meio da floresta, eles derrubam árvores, que fecham o caminho. Quando as pessoas descem do carro para retirar a tora, são rendidas”, diz E. S., militar da Polícia Ambiental, que recorre ao anonimato para se proteger. “Essa guerra é um câncer que está se espalhando pelo Estado”, alerta Nascimento.

Assim como consta nos panfletos da Liga, os guerrilheiros postam homens em bases nos morros com binóculos e rojão para anunciar a “invasão” de sua área por “forças inimigas”. Depois de sermos monitorados de perto por grupos de motoqueiros, durante os 38 quilômetros que levamos uma hora e meia para percorrer no território dominado pela LCP, ouvimos uma saraivada de rojões anunciando nossa presença. Estávamos próximos a uma base. O alerta serve também para que os homens armados se infiltrem na mata ocupando as barricadas montadas com grandes árvores nas cercanias dos acampamentos.

     

 

MORTE NO CAMPO

O agricultor Garcia (à dir.) foi morto com dois tiros na nuca. “Os guerrilheiros achavam que ele era um agente infiltrado na área da guerrilha”, disse o delegado Iramar Gonçalves. Os líderes da LCP acusados de assassinato são Russo (à esq.) e Caco, foragido

“O fato é que não dá para observá-los, mas estamos sob sua mira”, adverte o militar da Polícia Ambiental que nos acompanha. Na verdade, a PM Ambiental é a única força do Estado cuja presença ainda é tolerada pela guerrilha. A explicação é simples: com apenas oito agentes para cuidar de quase 900 mil hectares naquela região, eles não representam ameaça ao grupo. Antes, serão presas fáceis se assim os militantes o desejarem.

A BASE

Logo que o barulho dos rojões reverbera na imensidão da selva, as mulheres e crianças vestem seus capuzes e assumem a linha de frente. Quando se chega ao topo de um morro, depois de passar por uma barricada construída com o tronco de uma imensa árvore com a inscrição da Liga, avista-se uma bandeira vermelha tremular na franja de um acampamento de casas com cobertura de palha. Pouco tempo depois, outra barricada e chega-se a uma parada obrigatória. Do outro lado da porteira, transcorreu o seguinte diálogo com uma trupe maltrapilha, encapuzada e arredia.

– O que vocês vieram fazer aqui? – disse um nervoso interlocutor mascarado.
– Somos jornalistas e queremos saber o que vocês têm a dizer sobre a reforma agrária e a Liga dos Camponeses Pobres.
– Podem ir embora, não temos nada a dizer. Vocês só atrapalham.
– Quantas famílias estão nesta invasão?
– 300.
– Podemos falar com o líder de vocês?
– Aqui não existe líder, todos somos iguais.
– Por que vocês ficam mascarados?
– A máscara é nossa identidade.
– Vocês acreditam que podem fazer uma revolução?
– Não temos que dar satisfações à imprensa burguesa.
– De quem vocês recebem apoio?
– Não interessa.
– Podemos entrar no acampamento?
De forma alguma. Vão embora daqui!

Com colete à prova de balas sob a camisa, saímos da porteira do acampamento por uma questão de segurança e voltamos a percorrer de carro, numa estrada precária, mais uma hora e meia até o primeiro ponto de pedágio da LCP. “No ano passado, fomos presos por eles, éramos oito militares e eles tinham mais de 50 homens armados com metralhadoras”, conta o sargento da tropa. “Não tem jeito, para resolver o problema com esse bando só com uma ação conjunta do Exército, da Polícia Federal e das forças do Estado.”

   

TERROR O fazendeiro Sebastião Conte (à esq.) teve a sede, os tratores e seu plano de manejo incendiados. Os guerrilheiros não pouparam nem mesmo o posto da Polícia Ambiental, que foi destruído. Nos acampamentos, eles colocam crianças na linha de frente e usam capuzes

Ao voltar da área dominada pela LCP, fica claro, nas reservadas conversas com alguns poucos moradores dispostos a contar algo, que o terror disseminado pela guerrilha se mede pelo silêncio dos camponeses. Os revoltosos controlam a vida das pessoas, além de investigar quem é quem na região. Quem não “colabora” com eles – fornecendo dinheiro, gado ou parte da produção – vira alvo de ataques covardes. Histórias de funcionários das fazendas da região que foram colocados nus sobre formigueiros ou que apanharam até abandonar o local estão muito presentes na memória dos moradores. As torturas praticadas pelos bandoleiros contra trabalhadores rurais dificultam até contratação de mão-de-obra na região. “Ninguém quer trabalhar mais na minha fazenda”, admite Sebastião Conte, proprietário de 30 mil hectares de terra. Ele teve parte de sua terra “tomada” há dois anos pela LCP, a sede da fazenda foi queimada, assim como seus tratores, alojamentos e área do manejo florestal. O fazendeiro, acusado pela Liga de ser um latifundiário, é prova de que o terror da guerrilha é igual para todos. Segundo ele, nos últimos dois anos, teve que enterrar três de seus funcionários. “Todos eles assassinados barbaramente”, diz Conte. “Estou pedindo socorro. Não sei mais a quem recorrer.”

Longe de lá, na cidade de Cujubim, os trabalhadores rurais empregados das fazendas não dispensam o porte de armas. “Aqui ou você anda armado ou está morto”, diz M.L. O capataz da fazenda e seu filho já perderam a conta de quantas vezes trocaram chumbo com os mascarados que tentam invadir a fazenda. Tratados como paramilitares, os funcionários das fazendas são, depois dos fazendeiros, os alvos prediletos dos ataques da Liga. Nelson Elbrio, gerente da Fazenda Mutum, teve o azar de cair nas mãos da “organização”. Ele foi rendido exatamente como os militares da Polícia Ambiental e ficou preso sob a mira de uma arma por seis horas. “Assim que eu fiz a curva na estrada dei de cara com uns 15 homens encapuzados e fortemente armados. Eles me tiraram do carro e a partir daí vivi um inferno”, conta Elbrio. “Eles queriam que eu revelasse os segredos da fazenda: quantas pessoas trabalhavam lá, depósito de combustível, se tinha seguranças armados.” O sofrimento do funcionário se estendeu até o final da tarde, quando o grupo o arrastou até a sede da fazenda, dando tiros de escopeta próximo a seu ouvido. Em seguida, o obrigaram a assisti-los incendiando a propriedade e os tratores. “Nunca mais dormi bem”, diz Elbrio.

Com a morte à espreita, o medo transformou distritos inteiros em zonas despovoadas – verdadeiras vilas fantasmas – e criou uma massa de gente refugiada de sua própria terra, expulsa pela guerrilha. Em Jacilândia, das 25 casas de madeira da única rua do distrito, só oito estão habitadas. Até a igreja fechou suas portas. “O povo foi embora com medo dos guerrilheiros”, conta um dos moradores, um ancião que só admite a entrevista sob o anonimato. “Aqui não podemos falar nada. Para ficar de pé tem que se aprender a viver”, diz o velho agricultor. O silêncio e o abandono das terras são a mais dura tradução desse novo modo de viver. Maria, a mãe do agricultor assassinado, não esperou a missa de sétimo dia do caçula. Deixou para trás os 100 hectares, onde tinha 100 cabeças de gado e a casa recém-construída. Partiu para um lugar ignorado, sob a proteção de outro filho.

O SILÊNCIO
Naquele pedaço de terra, os poucos que, apesar de tudo, permanecem na área não têm rostos ou nomes. Quando interrogados pela polícia na apuração dos crimes, eles se tornam também cegos e surdos. “Não existe testemunha de nada”, reclama o delegado Gonçalves. A razão das infrutíferas apurações policiais é que os insurgentes presos são facilmente liberados pela Justiça. “Como eles usam a tática guerrilheira do uso de máscaras em suas ações, nós ficamos de mãos atadas para puni-los. Nunca se sabe quem de fato matou”, queixa-se o delegado. As únicas lideranças da LCP a enfrentar a prisão por causa de assassinatos foram Wenderson Francisco dos Santos (Russo) e Edilberto Resende da Silva (Caco), que se encontra foragido. Os dois foram acusados de participar do assassinato do trabalhador rural Antônio Martins, em 2003. Russo foi absolvido em primeira instância e os promotores recorreram da decisão ao Tribunal de Justiça.

MEDO OU CAUTELA?
“Nem com 50 homens armados eu tenho coragem de entrar nas terras deles”, diz o delegado Gonçalves

A ABIN SABE
Essa tensão é o pano de fundo de uma guerra psicológica que os ideólogos da organização avaliam como a ideal para que a área seja abandonada pelos fazendeiros. “A melhor forma de desocupar a área é destruindo o latifúndio”, nos disse um dos mascarados, chamado de Luiz por um colega. Na lógica da LCP, os fazendeiros têm que tomar prejuízo sempre, senão eles não abandonam a terra. À frente de 300 famílias da invasão da Fazenda Catanio, uma propriedade de 25 mil hectares, o guerrilheiro Luiz defende o confisco do gado para matar a fome dos invasores e considera que a “tomada” de terra é a forma legal de fazer uma “revolução agrária”. “Se esperarmos a Justiça, ficaremos anos plantados aqui”, diz ele.

A audácia dos militantes da LCP é tanta que no ano passado mais de 200 deles marcharam encapuzados pelas ruas do município de Buritis, a 450 quilômetros de Porto Velho, até parar na porta da delegacia, onde exigiram a saída do delegado Gonçalves da comarca. Motivo: ele tinha prendido um dos líderes da facção guerrilheira. Não satisfeitos, os bandoleiros bateram às portas do Ministério Público e da Justiça exigindo que os titulares dos órgãos também se afastassem. O fato foi reportado ao Ministério da Justiça, ao presidente Lula e ao governo estadual. Até agora, não houve nenhuma resposta. “Ninguém leva a sério nossas denúncias. Eles pensam que estamos brincando, que a denúncia de guerrilha é um delírio”, indigna-se o delegado Gonçalves. “Isso vai acabar numa tragédia de proporções alarmantes, e aí sim vão aparecer os defensores dos direitos humanos”, critica ele. É exatamente nessa desconsideração das denúncias de promotores, juízes e militares que a Liga ganha força e cresce impunemente.

Tão trágica quanto o terror que esse grupo armado impõe às comunidades rurais é o fato de os governos estadual e federal saberem da existência desse bando armado – e não fazerem nada. Segundo o Dossiê LCP, um relatório confidencial da polícia de Rondônia, com 120 páginas, encaminhado em dezembro passado à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ao Exército e ao Ministério da Reforma Agrária, o grupo armado, além de cometer todo tipo de barbaridade, é financiado por madeireiros ilegais. Conforme o documento, a LCP controla uma área estimada em 500 mil hectares, onde doutrina mais de quatro mil famílias de camponeses pobres espalhadas por mais de 20 assentamentos da reforma agrária distribuídos pelos Estados de Minas Gerais, Pará e Rondônia. “Eles estão na contramão do que é contemporâneo. Mas, de fato, formaram um ‘Estado’ paralelo”, entende Oswaldo Firmo, juiz de direito da Vara especializada em Conflito Agrário do Estado de Minas Gerais.

FORÇA-TAREFA
Documentos em poder de ISTOÉ comprovam que as autoridades federais têm feito ouvidos de mercador para o problema. No dia 11 de janeiro de 2008, o ouvidor agrário do governo federal, desembargador Gercino José da Silva Filho, acusou o recebimento das denúncias encaminhadas a ele sobre as ilegalidades cometidas por integrantes da Liga dos Camponeses Pobres. Mais uma vez, nada foi feito. “Eles dizem que sabem de tudo, mas cadê a ação?”, questiona o major Nascimento, comandante da Polícia Militar Ambiental de Rondônia. “Essa situação aqui só será resolvida em conjunto com outras forças militares”, admite o major. Foi o que aconteceu no Estado do Pará, em novembro passado, na chamada Operação Paz no Campo, quando uma ação envolvendo o Exército, as polícias civil e militar e a Polícia Federal desocuparam um acampamento da LCP na Fazenda Fourkilha, no sul do Estado. Com dois helicópteros, 200 homens e 40 viaturas, a força-tarefa cercou o local, prendeu cerca de 150 militantes e recolheu um verdadeiro arsenal de guerra. “Precisamos da mão forte do Estado. Aqui somos tratados como cidadãos marginais”, emenda o fazendeiro Sebastião Conte.

RICA

 FONTE: ISTOÉ http://www.istoe.com.br/reportagens/2158_O+BRASIL+TEM+GUERRILHA#.UVmm0Kj930Q.twitter

Igreja – uma mega cobertura

Uma megacobertura. Não há outra palavra para definir o volume de informação a respeito da Igreja Católica. A surpreendente renúncia de Bento XVI, os bastidores do conclave, o impacto da eleição do primeiro pontífice da América Latina e a próxima Jornada Mundial do Juventude, encontro do papa Francisco com os jovens, em julho no Rio de Janeiro, puseram a Igreja no foco de todas as pautas.

A cobertura do Vaticano é um case jornalístico que merece uma análise técnica. Algumas patologias, evidentes para quem tem olhos de ver, estiveram presentes em certas matérias da imprensa mundial: engajamento ideológico, escassa especialização e preparo técnico, falta de apuração, reprodução acrítica de declarações não contrastadas com fontes independentes e, sobretudo, a fácil concessão ao jornalismo declaratório.

Poucos, por exemplo, aprofundaram no verdadeiro sentido da renúncia de Bento XVI e na qualidade de seu legado. O papa emérito, intelectual de grande estatura e homem de uma humildade que desarma, sempre foi  julgado com o falso molde de um conservadorismo exacerbado. Mas, de fato, foi o grande promotor da implantação do Concílio Vaticano II, o papa que mais avançou no diálogo com o mundo islâmico, o pontífice que empunhou o bisturi e tratou de rasgar o tumor das disputas internas de poder e o câncer dos desvios sexuais.

Sua renúncia, um gesto profético e transgressor, foi um ato moderno e revolucionário. Bento XVI não teve nenhum receio de mostrar ao mundo um papa exausto e sem condições de governar a Igreja num período complicado e difícil. Foi sincero. Até o fim. Ao mesmo tempo, sua renúncia produziu um vendaval  na consciência dos cardeais. A decisão, inusual nas plataformas de poder, foi a chave para o início da urgente e necessária reforma da Igreja. O papa emérito, conscientemente afastado das bajulações e vaidades humanas e mergulhado na sua oração, está sendo uma alavanca de renovação da Igreja.

Nada disso, no entanto, apareceu na cobertura da mídia. Faltou profundidade, análise séria, documentação. Ficamos, todos, focados nos boatos, nas intrigas, na ausência de notícia. Falou-se, diariamente, do relatório dos cardeais ao papa emérito denunciando supostos escândalos no Vaticano.  Mas ninguém na mídia, rigorosamente ninguém, teve acesso ao documento. Os jornais, no entanto, entraram de cabeça no mundo conspiratório. Suposições, mesmo prováveis, não podem ganhar o status de certeza informativa.

Escrevia-me, recentemente, um excelente jornalista. Acordei hoje cedo, li os jornais e me perguntei: sou só eu a me indignar muito com a proliferação de “informações” inverificáveis, oriundas de fontes em off the record ou de documentos “sigilosos” sobre os quais não há nenhum outro dado que permita verificar sua realidade e consistência?  Ninguém se questiona sobre tantos “furos” “obtidos” por jornalistas que escrevem à distância “reportagens” tão nebulosas, redigidas em uma lógica claramente sensacionalista? Ninguém mais se preocupa com a checagem de informações, com a credibilidade das fontes? Assino em baixo do seu desabafo.

A  enxurrada de matérias sobre abuso sexual na Igreja são outro bom exemplo desses desvios. Setores da mídia definiram os abusos com uma expressão claramente equivocada: “pedofilia epidêmica”. Poucos jornais fizeram o que deveriam ter feito: a análise objetiva do fatos. O exame sereno, tecnicamente responsável, mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos ocorridos é muitíssimo menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade. O conhecido sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, apenas 100 sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto 6 mil professores de educação física sofriam condenação pelo mesmo delito. Na Alemanha, desde 1995, existiram 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero, menos de 0,2%. Por que só nos ocupamos das 300 denúncias contra a Igreja? E as outras 209 mil denúncias? Trata-se, como já afirmei, de um escândalo seletivo.

Claro que alguns representantes da Igreja –padres, bispos e cardeais – têm importante parcela de culpa. Na tentativa de  evitar escândalos públicos, esconderam um problema que é inaceitável.  Acresce a tudo isso o amadorismo, o despreparo e a falta de transparência da comunicação eclesiástica. O novo pontífice precisa enfrentar a batalha da comunicação. E dá toda a impressão de que o papa Francisco está decidido a estabelecer um diálogo direto e produtivo com a imprensa. O desejo de se reunir com os jornalistas na grande sala de audiência  Paulo VI foi muito sugestivo.

A Igreja,  com sua história bimilenar e precedentes de crises muito piores, é um fenômeno impressionante. E, obviamente, não é um assunto para ser tocado com amadorismo, engajamento ou preconceito. A má qualidade da cobertura da Igreja é, a meu ver, a ponta do iceberg de algo mais grave. Reproduzimos, frequentemente, o politicamente correto. Não apuramos. Não confrontamos informações de impacto com fontes independentes. Ficamos reféns de grupos que pretendem controlar a agenda pública. Mas o jornalismo de qualidade não pode ficar refém de ninguém: nem da Igreja, nem dos políticos, nem do movimento gay, nem dos funtamentalistas, nem dos ambientalistas, nem dos governos. Devemos, sim, ficar reféns da verdade e dos fatos.

            Há espaço, e muito, para o bom jornalismo. Basta cuidar do conteúdo e estabelecer metodologias e processos eficientes de controle de qualidade da informação.

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciência Sociais – IICS (www.iics.edu.br) e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com). E-mail: difranco@iics.org.br