MKULTRA: programa oficial e declarado da CIA para o abuso, tortura e controle de mentes

MKULTRA: CIA mutila e assassina milhares atrás do ‘controle da mente’

Pevertidos e facistas do monopólio degeneram o Estado americano com o “programa de controle de mentes da CIA”, que foi o maior escândalo de uma história sanguinária de assassinatos, terrorismo e embustes

O “MKULTRA”, como era denominado o programa de controle de mentes da CIA (as iniciais MK são de “Mind Kontrol” – a palavra “controle”, em inglês “control”, grafada com “k”, como em alemão) foi, provavelmente, o maior escândalo de uma história sanguinária de assassinatos, terrorismo e embustes – em suma, fascismo sem peias. Esta é a primeira de uma série de reportagens sobre o assunto.

Em 1975, no meio das investigações sobre os crimes da CIA – abertas depois de Watergate e da descoberta de que a CIA perseguiu dentro dos EUA (o que, além de imundo, é ilegal) os opositores à guerra do Vietnã -, revelou-se que desde 1953 a CIA (e o Pentágono) havia submetido cidadãos dos EUA e de outros países a “experiências” com o objetivo declarado de adquirir o “segredo do controle da mente” das pessoas. Sem que soubessem, provavelmente milhares de pessoas foram expostas à radiação, drogadas – sobretudo com LSD, mas também com misturas de drogas muitas vezes mais letais -, ou torturadas em testes “comportamentais”, ou submetidas a uma “reprograma-ção” mental para criar robôs-humanos com o objetivo de assassinato. Muitos foram levados à loucura e, pelo que se pode inferir com certeza, muitos à morte. Soube-se que a CIA havia espalhado o LSD pelos EUA e outros países – antes de 1953 só havia no mundo um pequeno estoque, no laboratório suíço Sandoz.

Um dos projetos do MKU-LTRA, por exemplo, era o de criar assassinos “insuspeitos”, isto é, assassinos involuntários, inconscientes, robôs, para que não pudessem ser ligados à CIA. Um documento de 14 de fevereiro de 1954, relata uma experiência com duas “voluntárias”: sob hipnose, “a senhorita [nome apagado] foi instruída (tendo expressado medo de armas de fogo) a que usasse qualquer método a sua disposição para despertar a senhorita [apagado] (agora em um sono hipnótico profundo). Se isso falhasse, ela deveria pegar uma pistola próxima e atirar na senhorita [apagado] Ela foi instruída de que sua raiva deveria ser tão grande que não hesitaria em ‘matar’ se falhasse em acordá-la. A senhorita [apagado] levou a cabo estas sugestões e, em seguida, caiu em um profundo sono. Depois que apropriadas sugestões foram feitas, ambas acordaram. A senhorita   [apagado] expressou sua negação de que a seqüência acima descrita tivesse acontecido” (CIA Mori ID 190691. P. 1).

Quanto à grande maioria, que não era de voluntários, com bastante razão, Alan Scheflin, jurista que há anos exige na Justiça a liberação de todos os documentos do MKULTRA sem trechos apagados, diz que “uma pessoa que diz ter sido vítima de um programa de controle da mente do governo está geralmente sob risco de não ser acreditada e de ser considerada mentalmente insana. E, de fato, há muitos que são vítimas de alucinações neuróticas. Mas (….) nós sabemos que existem vítimas verdadeiras porque nós sabemos os experimentos a que eles foram submetidos” (Jim Bron-skill, “Playhouse of Horrors”, Hamilton Spectator, 13/09/1997).

 submundo nazista 

Por exemplo, Linda McDonald tinha 25 anos quando, devido a uma depressão pós-parto, problema relativamente comum, recorreu a um ambulatório num departamento de psiquiatria de uma universidade – a incensada McGill, de Montreal, Canadá. O ambulatório fazia parte de uma seção do MKULTRA, estabelecida naquele país por ordem do diretor da CIA, Allen Dulles, sob comando de um americano, Ewen Cameron, o mesmo que, como presidente da Associação Mundial de Psiquiatria, vivia acusando os soviéticos de “uso político da psiquiatria” e pedindo a expulsão da URSS da entidade.

Linda McDonald, evidentemente, não sabia que estava entrando nesse submundo nazista. Em seu depoimento, no processo que moveu contra a CIA quase 20 anos depois, ela relatou que foi isolada num quarto, drogada durante 86 dias, recebendo 102 eletrochoques, o que foi confirmado pelo prontuário de sua inter-nação. Como não havia nenhuma indicação médica para esse “tratamento” de uma depressão pós-parto, foi-lhe pespegado um falso diagnóstico de “esquizofrenia aguda”. Certamente, também não havia indicação alguma dessa estupidez sádica para esquizofrenia, mas essa doença era – como até hoje – muito menos conhecida que uma depressão e, mais do que hoje, muito mais ameaçadora. No processo que Linda moveu, a CIA pagou uma indenização para encerrá-lo.

Um dos torturadores de Linda, um certo Peter Roper, que tinha um diploma de medicina e até um doutorado em psiquiatria, afirmou que “o objetivo era apagar os padrões de pensamento e comportamento que eram prejudiciais ao paciente que estava doente, e substituí-los por padrões saudáveis de pensamento e comportamento”. O depoimento de Robert Loguey, outra vítima do mesmo laboratório secreto, é bastante esclarecedor sobre esses “padrões saudáveis”: durante uma infinidade de tempo, Robert foi colocado num quarto isolado em que, durante 23 horas por dia, era obrigado a ouvir uma gravação com uma única frase – “você matou a sua mãe”. Também nesse caso, a CIA pagou indenização para encerrar o processo.

Um paciente do New York Psychiatric Institute, Harold Blauer, morreu em 1953, depois de uma dose cavalar de um derivado sintético da mes-calina, um alucinógeno encontrado em alguns cogumelos venenosos. Era a quinta dose que era administrada a ele, que queixava-se pungentemente do sofrimento após as outras “injeções”, das quais desconhecia o conteúdo.

Blauer procurou a instituição por estar sofrendo, após seu divórcio, de depressão. O psiquiatra que o atendeu, Paul Hoch, era do MKULTRA – a CIA tinha um contrato com o Departamento de Higiene Mental de Nova Iorque, para que pacientes fossem usados pelo seu programa de controle de mentes. A alta de Blauer do hospital já esta prevista para algumas semanas depois. Em 1987, depois de um processo movido por sua família, o governo americano foi condenado como responsável por sua morte.

A um grupo de “voluntários” (não se sabe voluntários para quê) foram administradas altas doses de LSD durante 77 dias. Vários envolvidos receberam dinheiro para instalar “dispositivos” elétricos em pacientes.

Há muito mais nos depoimentos – e, verdadeiramente, coisas muito mais escabrosas. Roper diz, numa excelente reportagem do programa “Fifth Estate”, da TV canadense CBC, que o MKULTRA “deve ter sido estimulado pelos efeitos das (sic) tropas americanas da guerra na Coréia, que pareciam ter sido submetidas a lavagem cerebral”.

Todos os criminosos do MKULTRA disseram a mesma coisa em seus depoimentos. No entanto, não houve um único caso de soldado americano na agressão à Coréia onde se comprovasse qualquer coisa a esse respeito, e já faz 50 anos que os americanos foram derrotados. Jamais houve um único caso, aliás, onde os comunistas, democratas e patriotas tenham realizado qualquer “lavagem cerebral”. Tanto é verdade que, além da falta de qualquer caso, os arquivos da KGB estão abertos há mais de 10 anos e nada se achou.

O MKULTRA começou muito antes da agressão a Coréia, com outros nomes, assim como continuou depois do seu propalado encerramento, também com outros nomes – e ninguém pode ter certeza de que não continua até hoje, sobretudo considerando que essa obsessão por controlar as mentes das pessoas é uma parte inseparável e essencial do fascismo ianque, que não se contenta com a gigantesca lavagem cerebral que a sua mídia submeteu o povo norte-americano depois da II Guerra.

Em 1947 – três anos, portanto, antes da agressão ao povo coreano – já havia um programa de “controle de mentes”, o Projeto Chatter, na época sob direção da Marinha americana. A CIA não existia ainda, mas o fascismo nos EUA, já.

Essencialmente, era a mesma coisa do MKULTRA, apenas em dimensões mais modestas. Em 1950, meses antes da agressão, a própria CIA estabeleceu o Projeto Bluebird, com as mesmas finalidades. E, em agosto de 1951, começou o Projeto Artichoke. Não se tem, por sinal, a data precisa de encerramento desses “projetos”. Sabe-se, por exemplo, que o Artichoke ainda estava ativo em 1956, três anos depois do início do MKULTRA. Portanto, este último não foi propriamente uma unificação dos outros, assim como não foi uma substituição do MKNAOMI, um projeto de igual caráter iniciado em 1952, em conjunto com o exército americano. Há comprovação documental de que até 1970 o MKNAOMI funcionou, junto com o MKULTRA e outros programas (todas a informações que acabamos de mencionar encontram-se no mencionado relatório do Senado dos EUA, parte XVII, “Testing And Use Of Chemical And Biological Agents By The Intelligence Community”, págs. 387/389, 1975).

 TENTATIVA DE DESTRUIÇÃO 

O leitor deve ter notado que nos referimos bastante, até agora, às vítimas da seção do MKULTRA que a CIA estabeleceu no Canadá. O motivo é que a documentação a respeito dela é muito mais completa que a sobre os crimes perpetrados nos EUA. Tanto assim que existem 127 processos de vítimas – ou de famílias de vítimas, no casos dos mortos – do MKULTRA no Canadá, e quase nenhum nos EUA. Até agora a CIA somente foi obrigada a reconhecer duas mortes nos EUA: a de Blauer e a de Frank Olson, tema da nossa próxima reportagem.

O motivo foi a destruição dos arquivos, inclusive dos registros de nomes das vítimas. Muitas delas, possivelmente, nem registra-das foram – entre outros “truques”, como a CIA chamava isso, foi estabelecida uma rede de bordéis, onde LSD e outras drogas eram administradas aos freqüentadores, enquanto os voyeurs do MKULTRA “observavam” as reações através de um espelho duplo instalado na parede do quarto. A isso a CIA chamou “Operação Midnight Climax”. 

 Em 1975, diante da Comissão Church, o chefe do MKULTRA, um psicopata de nome Sydney Gottlieb, declarou que toda a documentação referente ao programa tinha sido destruída em 1973 por ordem verbal do então diretor geral da CIA, Richard Helms. Em seu depoimento, Helms confirmou, acrescentando que foi por sugestão de Gottlieb que havia dado a ordem. Helms e Gottlieb tinham formado uma dupla desde a década de 50. E 1973 foi o último ano dos dois no   serviço ativo da CIA.

Vinte anos antes, em 1953, o MKULTRA foi uma proposta do então adjunto do vice-diretor de Planos (isto é, de operações encobertas) da CIA, Richard Helms, ao diretor-geral, Allen Dulles. Helms propunha “pesquisas para desenvolver uma capacidade de uso encoberto de materiais biológicos e químicos. Essa área envolve a produção de várias condições psicológicas que poderiam apoiar operações clandestinas presentes e futuras” (Memorando de Helms a Dulles, 03/04/53, Relatório Church, pág. 390). A história sobre “lavagens cerebrais” feitas na Coréia é, nesse memorando, claramente um encobrimento. Ela só aparece depois de Helms destacar o “potencial ofensivo” da sua proposta. Dulles ficou entusiasmado: 10 dias depois ele a aprovou.

É pertinente notar que o mesmo Dulles, nomeado por Johnson para a Comissão Warren, seria o principal mentor do insustentável e absurdo relatório que tentou encobrir a conspiração que redundou no assassinato de Kennedy.

Kennedy havia nomeado um novo inspetor-geral e um novo diretor-geral, John McCone, para a CIA. Em 1963, meses antes do assassinato de Kennedy, um dos funcionários da inspetoria, John Vance, em uma auditoria na Divisão de Serviços Técnicos da CIA, descobriu a existência do MKULTRA. Nessa época, Helms tinha sido promovido a vice-diretor de Planos da CIA. O inspetor-geral, então, “falou ao vice-diretor de Planos, que concordou que o diretor-geral devia ser comunicado, indicando, entretanto, que não estava seguro se era necessário comunicar ao diretor-geral sobre este ponto” (Rel. Church, pág. 401). A frase é tortuosa, mas apenas porque é o retrato do caráter de Helms.

Dias depois, Hel-ms disse ao inspetor que havia comunicado a existência do MKULTRA ao novo diretor-geral, e que McCone “não indicou discordância e, portanto, os testes continuarão”. Os “testes” eram, principalmente, a administração de LSD a não-voluntários, vítimas inocentes “em situações sociais”, como disse Helms no memorando a Dulles. Oun seja, funcionários civis e militares em reuniões de trabalho, pacientes de hospitais psiquiátricos, prostitutas e seus clientes em bordéis, estudantes e professores nas universidades, prisioneiros e “membros do público em geral”.

O chefe direto dessa porcaria nazista, Sydney Gottlieb – o mesmo que foi enviado ao Congo na tentativa da CIA de envenenar Lumumba – “era conhecido por torturar as vítimas fechando-as em câmaras de privação sensorial, fazer gravações da terapia de pacientes psiquiátricos e depois obrigá-los a ouvir suas declarações mais auto-degradantes a todo volume, após serem drogados com LSD” (cf. o sintético e fundamentado artigo “MKULTRA”, na Wikpedia)

No entanto, o inspetor-geral desconfiou do comunicado de Helms. Preparou uma versão do seu relatório “somente para os seus olhos” para o diretor-geral – e McCone, depois de lê-lo, suspendeu o projeto. Isso foi em maio de 1963.

Em dezembro de 1963 – portanto, após a morte de Kennedy, ocorrida em novembro – Helms enviou ao diretor-geral um memorando propondo a reativação do MKULTRA. Depois, em junho de 1964, quando McCone havia sido substituído na direção da CIA por um general de nome Carter, o MKULTRA foi retomado, como relata o Relatório Church, cujos autores acreditaram que a administração escondida de LSD havia parado em 1963, apesar de Gottlieb e Helms continuarem a mandar no MKULTRA por mais 10 anos.

As investigações de 1975, pelas comissões dos senadores Frank Church e Edward Kennedy (que através da Subco-missão de Saúde, que presidia, investigou as experiências em seres humanos), devido à destruição dos documentos internos do MKULTRA, tiveram que se basear somente nos testemunhos, em alguns memorandos da direção da CIA, e, sobretudo, em dois relatórios – de 1957 e 1963 – de inspetores-gerais.

Dois anos depois, em 1977, o escritor John Marks, na época preparando seu livro sobre o MKULTRA (“The Manchurian Candi-date”) solicitou, invocando a lei, uma pesquisa nos arquivos da CIA e a conseqüente liberação dos documentos porventura achados sobre o programa. Nessa época, o governo havia mudado, e o presidente Carter travava uma luta surda, se bem que algo tímida, para colocar a CIA dentro de certos limites. Foram descobertas, então, seis caixas de documentos do MKULTRA no Retired Records Center – o arquivo morto da CIA em Washington. Estavam numa seção do arquivo, a de Orçamento, onde não foram procuradas nem pelos destruidores – em 1973 -, nem pelos pesquisadores da Comissão Church, em 1975.

Iniciando a investigação dos novos achados, em 1977, o senador Kennedy assim os resumiu:

“Dois anos atrás, a Subcomis-são de Saúde do Senado ouviu depoimentos dados com frieza sobre as experiências da CIA em seres humanos. O Adjunto do Diretor da CIA revelou que cerca de 30 universidades e instituições foram envolvidas em um programa ‘extensivo de testes e experiências’ que incluíam testes de drogas escondidos em cidadãos ‘de todos os níveis sociais, altos e baixos, americanos natos e estrangeiros’ [citação de um memorando de Helms a Dulles, de 1953]. Vários desses testes envolviam a administração de LSD ‘em situações sociais, escondido dos indivíduos’. (….) A Agência admitiu que esses testes faziam pouco sentido científico. Os agentes que davam monitoramento não eram observadores científicos qualificados. Os indivíduos que eram alvo dos testes raramente estavam acessíveis além das primeiras horas do teste. Em numerosos casos, o indivíduo alvo do teste ficou doente por horas ou dias, e um efetivo acompanhamento era impossível. Outras experiências foram igualmente ofensivas. Por exemplo, viciados em heroína foram recrutados para participar de experiências com LSD em troca de um prêmio – heroína. Talvez o mais perturbador foi o fato de que a extensão das experiências com seres humanos era desconhecida. Os registros de todas essas atividades foram destruídos em janeiro de 1973, por orientação do então diretor da CIA, Richard Helms. E nenhum – nem um único indivíduo – pôde ser achado que lembrasse dos detalhes, nem o diretor da CIA que ordenou a destruição dos documentos, nem o funcionário responsável pelo programa, nem algum de seus associados. Nós acreditávamos que os registros, incompletos como eram, eram tão completos como podiam ser. (….) Esses novos registros foram descobertos pela agência em março. Sua existência não foi conhecida do Congresso até julho. Os registros revelam uma decididamente mais ampla série de experiências do que anteriormente pensávamos. Oitenta e seis universidades ou instituições estavam envolvidas. Novos casos de comportamento anti-ético foram revelados” (Relatório da audiência conjunta do Comissão de Inteligência e da Subcomissão de Saúde e Pesquisa Científica do Senado dos EUA, 03/08/1977, págs. 6/8) .

 manual de truques 

Em suma, somente nessas seis caixas, havia referência a 149 “projetos”. Havia, inclusive, um “manual de truques” para orientar os que administravam LSD e outras drogas a pessoas inocentes. Como disse um dos denunciadores do MKULTRA, Mark Zepezauer, autor de um livro sobre a CIA (“The CIA’s Greatest Hits”), apesar disso ser somente uma pequena parte em relação ao que foi destruído, “a história que sobreviveu já é demasiado sórdida”.

http://www.horadopovo.com.br/2003/dezembro/05-12-03/pag6b.htm

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