Entre a foice, o martelo, a régua e o compasso: a grande rede maçônica de CUBA

Maçonaria à cubana: foice e martelo de um lado, régua e compasso do outro

Cuba é o único caso de país de regime marxista duro que tolera em todo o seu território uma importante sociedade secreta de fundo esotérico: a maçonaria. Hoje, na bela e conturbada ilha de Fidel e Raul, florescem nada menos que 318 lojas maçônicas, frequentadas abertamente por cerca de 30 mil membros inscritos. Números bastante altos para um país de população tão pequena. A santeria – culto afro-cubano primo-irmão dos nossos candomblé e umbanda – é, em Cuba, o único outro sistema de poder esotérico capaz de concorrer com a maçonaria em termos de existência razoavelmente livre e solta.

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Numa loja maçônica em Cuba o rito da corrente de força, representada pelas mãos dadas e os braços cruzados dos confrades, é símbolo evidente da união e do poder maçônicos. A confraria se prepara para desempenhar papel importante no futuro do país. Foto: Mauro D’Agati, La Repubblica.

Várias histórias correm na ilha, tanto nos meios maçônicos quanto fora deles, para explicar essa curiosa tolerância. Alguns dizem que Fidel e Raul são maçons, mais provavelmente o segundo. Outros afirmam que se trata de um dever de gratidão: durante a revolução cubana, Fidel Castro teria se refugiado numa loja maçônica, onde encontrou abrigo e proteção. Por isso, ele nunca fechou nem um único templo maçônico nem perseguiu os seus membros.

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O imponente Edifício Maçônico, epicentro das atividades da confraria em Cuba, localizado na Avenida Salvador Allende, no centro de Havana.

O fato é que, hoje, a Grande Loja de Cuba – epicentro das atividades da organização no país – é inteiramente regular e reconhecida pela maioria das grandes lojas maçônicas ao redor do mundo.

Fato incontestável, e que talvez tenha a ver com essa tolerância, é que a própria independência de Cuba foi alcançada em boa parte graças à ação de maçons franceses e cubanos. A maçonaria surgiu em Cuba em 1763, a partir de lojas militares inglesas e irlandesas. Quando os ingleses partiram, chegaram os franceses, aos milhares, fugidos da revolução no Haiti em 1791. A primeira loja realmente cubana foi o Templo das Virtudes Teológicas, fundada em Havana em 1804 pela Grande Loja da Luisiana.

O que torna única a presença da maçonaria em Cuba é o papel que ela desempenhou durante as três décadas de luta pela independência do jugo espanhol entre 1868 e 1895. Os três grandes líderes revolucionários – José Martí, Antonio Maceo e o “pai da nação” Carlos Manuel de Céspedes eram, todos eles, maçons. Historiadores dizem hoje que foi impossível para os revolucionários comunistas varreram para embaixo do tapete a afiliação maçônica desses três heróis nacionais. Mas a verdade é que pouco ou nenhum esforço foi feito nesse sentido. A imensa maioria dos presidentes cubanos, começando por Carlos Manuel de Céspedes, foram maçons.

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Ritual em loja maçônica localizada no interior de Cuba. No estandarte verde lê-se a data da sua fundação: 3 de dezembro de 1964.

Há outras características curiosas no comportamento da maçonaria no seio da sociedade cubana. Claro, ela é monitorada pelo governo que quase certamente mantém agentes e informantes infiltrados no interior das lojas. Mas são muito raras as intervenções abertas ou as limitações impostas aos cultos. Para manter esse confortável estado de coisas, os líderes maçons cubanos preferem não adotar posições de confronto com as políticas do regime. Apesar disso, eles recebem de braços abertos em seus quadros um grande número de dissidentes.

Após o esfacelamento da União Soviética – que era o maior parceiro comercial de Cuba – o governo cubano facilitou ainda mais as coisas para a maçonaria, autorizando-a a participar de cerimônias públicas e a abrir várias novas lojas. Todavia, o funcionamento regular de todas as lojas maçônicas ainda está sujeito à permissão por parte das autoridades, e a publicação de livros e panfletos maçônicos é bastante restrita pelos serviços de censura governamental.

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No alto do Edifício Maçônico, o símbolo da Régua e Compasso encimam um enorme globo terrestre.

A Grande Loja de Cuba, conhecida popularmente como o Edifício Maçônico, foi construída por volta de 1955 para as funções de Templo e sede central das entidades maçônicas de Cuba e chegou a albergar a Universidade Maçônica. Trata-se de um edifício imponente, incluído entre as obras arquitetônicas mais significativas da cidade de Havana. Encontra-se na atual Avenida Salvador Allende, no centro da capital cubana. Sem esquecer que o chileno Salvador Allende, amigo e aliado dos irmãos Castro, era maçom convicto.

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Um dos salões da Loja Maçônica na cidade de Banes.

Há pouco, a jornalista italiana Anna Lombardi, do jornal La Repubblica, conseguiu um feito inédito: visitar a Grande Loja de Cuba, em Havana, e vários outros templos maçônicos na ilha. Mas não apenas: Lombardi entrevistou líderes maçons cubanos e participou de rituais fechados da confraria. Seu saboroso relato foi publicado na revista “Il Venerdì di Repubblica”, edição nº 1301, de 22 de fevereiro.

Aqui segue o seu artigo:

AS LOJAS DE CUBA – Assim sobrevivem os maçons na ilha de Fidel

Por: Anna Lombardi (La Repubblica, Itália)

Um edifício numa aldeia perdida na Sierra Maestra, na porta os símbolos maçônicos do esquadro e compasso: dizem que em 1956 nela se esconderam Fidel Castro e seus barbudos apenas desembarcados do Granma. E foi exatamente no interior dessa velha loja maçônica de montanha que o futuro Líder Máximo criou aquele Movimento 26 de Julho que em poucos anos teria varrido para longe a ditadura de Fulgêncio Batista,inspirando-se nos ensinamentos de José Martí, o herói cubano pai do movimento independentista da ilha. Herói e maçom. Como outros revolucionários latino-americanos (e não apenas) do final do oitocentos: de Benito Juarez a Simon Bolívar. Dizem ser por isso que, uma vez no poder Fidel, em reconhecimento, tolerou a maçonaria: confraria misteriosa (os afiliados preferem defini-la “discreta”) que em todo o mundo compartilha ritos e símbolos naquilo que define “incansável busca da verdade”.

Claro, muitas histórias são contadas em Havana. Que a tolerância de Fidel para com a maçonaria deve-se ao seu afeto por um seu professor maçom. Que o padre Angel, famoso proprietário de terras, era um afiliado. Que se trata de um gesto de respeito a seu amigo Salvador Allende, também maçom. Até algumas teorias direitistas, das quais a Internet está cheia, segundo as quais o próprio Fidel é um iniciado. Ou, pelo menos, o seu irmão Raul…

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Diploma de afiliação à Loja Minerva, uma das mais importantes de Cuba.

Qualquer que seja o segredo que se esconde por trás da complacência dos Castro em relação à confraria, é certo que a cubana é a única maçonaria tolerada por um regime totalitário. Foram os franceses em fuga da revolta dos escravos no Haiti em 1791 a levá-la para Cuba.

Mas já em 1859 Cuba se orgulhava de possuir uma loja autônoma, a mesma que opera até hoje. Ela escapou inclusive à homologação cultural pós revolução que aconteceu em 1959, embora alguns “irmãos” tivessem proposto a sua dissolução, sob a alegação de que “no novo contexto político certos ideais não tinham mais razão de existir”. O Grão Mestre daquela época fugiu para a Flórida com todo o seu estado-maior, e a partir de Miami passou a lançar anátemas sobre seus confrades que permaneceram na ilha, desencorajando-os de eleger um novo chefe.

Flechas que caíram ao mar: hoje, na ilha, existem 318 lojas frequentadas por mais de trinta mil afiliados. O número tem aumentado ultimamente: “Depois da queda do Muro de Berlim” contou um ex grão mestre ao New York Times “muitos jovens vieram a nós em busca de respostas que o Estado não tem condições de dar. Eles nos identificam como exemplo social: não discutimos política nem religião”.

Diz Mark Falcoff, experto em América Latina da revista Foreign Affairs, que foi exatamente esse fator que permitiu à maçonaria cubana manter sua autonomia. Evitando a política, a organização pode discutir temas “incômodos” como o aborto e a globalização. E pode acolher em suas fileiras muitos dissidentes do regime: dos 75 presos durante a Primavera Negra, a onda repressora de 2003 que mirou jornalistas, sindicalistas e outros opositores, doze eram maçons. “Mas a Loja não foi envolvida no caso”, contou um deles, o jornalista Jorge Olivera ao jornal Chicago Tribune.

Oficialmente, o governo elogia a maçonaria por estar ligada aos momentos mais nobres da história cubana. Mas a Grande Loja precisa de qualquer modo pedir permissão para qualquer coisa: desde depor uma coroa de flores aos pés da estátua de José Martí até a publicação de um simples manual ritual. Em privado, seus membros se lamentam da presença de infiltrados, fazendo aceno a ameaças veladas quando um estrangeiro frequenta um tanto em excesso a Loja. Mas todos pensam que, no futuro, a maçonaria terá um papel importante no processo de reconciliação das diversas almas do país.

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Loja maçônica Verdad, na cidade cubana de Matanzas.

Certo, nem todas as lojas gozam de boa saúde. Muitas, sobretudo as que estão muito distantes da capital, estão em ruínas. Mas todas citam o Grande Templo Nacional Maçônico, um edifício de onze andares coroado por um esquadro e compasso, situado no número 508 da Avenida Salvador Allende, em Havana. Quando foi inaugurado, em 1955, era um dos mais modernos de Cuba. E um dos mais ricos, como testemunham ainda hoje os pequenos sofás de couro azul ou as colunas encimadas por globos luminosos. É aqui que acontecem os ritos coletivos. É aqui, entre essas paredes, medalhas e espadas, que o Grão Mestre e o Grão Secretário mantêm os seus escritórios. Há também um museu, uma biblioteca aberta ao público e um asilo que abriga os maçons idosos e administra as doações – sobretudo medicamentos – enviadas pelas lojas americanas e europeias.

Nos subterrâneos se localiza a escura “câmera de reflexão”: nela, em companhia de esqueletos e outros símbolos da vanitas (vaidade) humana, o aspirante a iniciado começa o seu aprendizado. “Morre” para depois renascer para uma nova vida no interior da comunidade. Um ritual simbólico que, no país da santeria, o culto sincrético que une elementos africanos a elementos católicos, foi enriquecido com passagens ainda mais macabras.

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Monumento funerário maçônico em cemitério de Havana.

Mas pode ter sido exatamente esse mix o fator que suscitou, ulteriormente, o favor dos Castro. Os irmãos sempre usaram os símbolos da santeria a seu favor. Como aconteceu em 1959 – uma semana depois da fuga de Batista – quando Fidel, durante um comício, fez com que duas pombas brancas – símbolos de Obatalá, versão local de Cristo – pousassem sobre seus ombros.

Santeria e maçonaria, em resumo, para obter consenso na Cuba pós Revolução. A primeira, útil para fascinar a população afro-americana, pouco representada no regime. A segunda, útil para garantir a simpatia da esquerda latino-americana. Foice e martelo de um lado, régua e compasso do outro.

Música e Moralidade – Roger Scruton

Música e Moralidade, Roger Scruton
por Hugo Medeiros (Notas) em Domingo, 19 de maio de 2013 às 16:04

“Platão continua sendo o nosso melhor crítico de rock.”

 

“Os caminhos da poesia e da música não são alterados em qualquer lugar sem uma mudança nas leis mais importantes da cidade.” Assim escreveu Platão na República (4.42c). A música, para Platão, não era um divertimento neutro. Poderia expressar e estimular a virtude – nobreza, dignidade, temperança, castidade. Mas também poderia expressar e estimular o vício – sensualidade, agressividade, indisciplina.

 

A preocupação de Platão não era muito diferente da de um homem moderno preocupado com o caráter moral, e o efeito moral, do Death Metal, digamos, ou do kitsch musical do gênero de Andrew Lloyd Webber. “Os nossos filhos deviam estar ouvindo essas coisas?” é a pergunta na mente dos adultos modernos, assim como “a cidade deveria permitir isso?” era a questão na mente de Platão.  Claro, há muito tempo desistimos da ideia de proibir certos tipos de música através de leis. No entanto, é ainda comum acreditar que a música tem – ou pode ter – um caráter moral, e que o caráter de uma obra ou de um tipo de música pode “contagiar” de alguma maneira seus devotos.

 

Nós não proibimos tipos de música através de leis, mas nós deveríamos lembrar que nossas leis são feitas por pessoas que têm preferências musicais; Platão pode estar certo, mesmo em relação a uma democracia moderna, sobre as mudanças da cultura musical seguirem de mãos dadas com as mudanças das leis, uma vez que as mudanças das leis refletem muitas vezes as pressões da cultura. Não há dúvida de que a música popular, hoje, goza de um status superior ao de qualquer outro produto cultural. Pop stars são os primeiros entre as celebridades, são idolatrados pelos jovens, tomados como modelos, cortejados por políticos, e em geral dotados de uma aura mágica que lhes confere poder sobre as multidões. É certamente possível, portanto, que algo de suas mensagens vai refletir nas leis aprovadas pelos políticos que os admiram. Se a mensagem é sensual, egocêntrica, e materialista (o que geralmente é), então nós não devemos esperar que nossas leis se dirijam a nós de um patamar superior ao conteúdo de tal mensagem.

 

Contudo, a nossa cultura é “sem julgamentos”. Criticar a preferência de outra pessoa, seja na música, entretenimento, ou estilo de vida, é admitir que algumas preferências são superiores a outras. E isso, para muitas pessoas, é ofensivo. Quem é você, respondem eles, que julga a preferência dos outros? Os jovens, em particular, sentem isso, e uma vez que são os jovens os principais devotos da música pop, isso coloca um obstáculo formidável no caminho de quem se compromete a criticar o pop numa universidade. Isso se dá especialmente desta maneira se a crítica é formulada em linguagem platônica, como uma análise e condenação dos vícios morais exemplificados por um tipo de música. Em face disso, um professor pode ser tentado a desistir do problema do julgamento, e aceitar que qualquer coisa serve, que todas as preferências são igualmente válidas, e que, na medida em que a música é um objeto de estudo acadêmico, não se trata de crítica, mas de análises técnicas e conhecimentos práticos que devem ser transmitidos. De fato, essa é a linha que parece ser seguida pelos departamentos acadêmicos de musicologia, pelo menos no mundo anglófono.

 

A QUESTÃO DO CARÁTER MORAL da música é também complicada pelo fato de que a música é apreciada de muitas maneiras diferentes: as pessoas dançam músicas, elas trabalham e conversam ao som de músicas de fundo, elas executam e ouvem músicas. As pessoas se empolgam para dançar uma música que não suportariam ouvir – uma experiência bastante normal nos dias de hoje. Você pode conversar ouvindo Mozart, mas não ouvindo Shoenberg; você pode trabalhar ouvindo Chopin, mas não ouvindo Wagner. E às vezes se argumenta que o contorno melódico e rítmico da música pop serve não apenas para ser ouvido, mas também para ser ouvido de maneira alta, e que estimula a necessidade do pop enquanto música de fundo. Alguns psicólogos se perguntam se essa necessidade segue o padrão dos vícios; críticos mais filosóficos como Theodor Adorno levantam questões de natureza profunda, como saber se o ouvido humano não mudou inteiramente sob o impacto do jazz e de seus sucessores musicais, e se a música pode ser para nós jamais o que foi para Bach ou Mozart.

 

Adorno atacou o que ele chamou de “regressão da audição”, que ele acreditava ter infectado toda a cultura da América moderna.  Ele considerou a cultura da audição como um recurso espiritual da civilização ocidental. Para Adorno, o hábito de ouvir composições de grande alcance, em que os temas são subordinados a um amplo desenvolvimento melódico, harmônico e rítmico, está ligado à capacidade de viver para além do momento, de transcender a busca de uma gratificação imediata, para pôr de lado as rotinas da sociedade consumista, com sua constante busca pelo “fetiche”, e colocar os verdadeiros valores no lugar dos desejos fugazes. E há, aqui, algo convincente que precisa ser resgatado da crítica imoderada, e demasiado politizada, que Adorno faz a respeito de praticamente tudo que ele encontrou nos Estados Unidos. Mas Adorno nos lembra de que é muito difícil criticar um tipo de música sem colocar sob julgamento a cultura a que ele pertence. Os estilos musicais não vêm em pacotes fechados, sem relação com a vida humana em torno.  E quando um determinado tipo de música nos rodeia em espaços públicos, quando invade cada café, bar e restaurante, quando seu estrondo nos atinge ao trânsito dos carros e nos respinga das torneiras abertas dos rádios e iPods em todo o planeta, o crítico pode ficar como o apócrifo Rei Canuto diante de uma maré irrefreável, proferindo gritos inúteis de indignação.

 

Nós deveríamos, então, desistir da música pop, considerando-a como além da crítica, e a cultura expressa nela com um fato da vida? Esse parece ser o ponto de vista entre os musicólogos. A música pop, dizem-nos, existe para ser dançada, e aqueles que a julgam com normas de salão de concertos, que é um lugar onde se escuta em silêncio, perderam simplesmente a noção. A essência do pop não é a forma, a estrutura, ou as relações musicais abstratas. Trata-se de ritmo, e o ritmo é algo para você se mover, não para você ouvir.

 

Essa é certamente uma resposta justa para as formas mais truculentas da crítica, mas levanta uma questão de profunda importância no estudo da música, que é o da natureza do ritmo. Muitos dos tipos de pop de maior sucesso hoje (Dj de música, por exemplo, ou produtos sintéticos como “Alice Pratice”, de Crystal Castles) são gerados em computador. Em tais músicas, você não ouve um ritmo, mas um tempo cortado por um fatiador eletrônico. Ritmo não é a mesma coisa que mensuração. Não se trata simplesmente de dividir o tempo em unidades repetíveis. E sim de organizar o som no movimento, de modo que uma nota convida a próxima ao seu espaço vago. Isso é exatamente o que se passa na dança – dança de verdade, quero dizer. E as queixas que possam ser feitas contra a pior forma de pop se aplicam às desastrosas tentativas de dança que normalmente são produzidas por ela – esforços que não envolvem o controle do corpo, nenhuma tentativa de dançar com outra pessoa, na melhor das hipóteses apenas uma tentativa de dançar para ele ou para ela, fazendo movimentos que são cortados e atomizados como os sons que os provocam.

 

UM CONTRASTE SIMPLES É FORNECIDO pela dança escocesa eigthsome reel. Nada poderia ser mais metricamente regular do que isso, mas há certo sentido [ou, nexo] que pode ser ouvido na transição das seções, como os gestos de mudança – às vezes as mãos estão no ar, às vezes ao redor da cintura,  às vezes as pernas se cruzam livremente, outras vezes tendem a pisar com força. A melodia é ligeiramente variada de acordo com cada mudança de parceiro e a animação aumenta com o encerramento da linha melódica.

O ritmo no Heavy Metal, ou na música de DJ, é atirado a você. A diferença entre a e com é uma das mais profundas diferenças que conhecemos, e se manifesta em todos os nossos encontros com outras pessoas – notadamente nas conversas e nas interações sexuais. E este “estar junto” da dança escocesa reflete o fato de que ela é uma dança social, em que as pessoas se movimentam conscientemente umas com as outras. A necessidade humana por esse tipo de dança ainda existe em nós, e explica a atual mania por salsa, bem como o constante reaparecimento da dança de salão.

O Metal é atirado a seus devotos, e a perda de melodia da linha vocal enfatiza isso. Não que a melodia esteja totalmente ausente, é claro; ela é permitida ao solo de guitarra, que é frequentemente uma reflexão pungente sobre sua própria solidão – o espírito de uma comunidade que foi varrido desse mundo cruelmente envernizado. O mundo dessa música é aquele em que as pessoas falam, gritam, dançam e sentem, sem fazer essas coisas umas com as outras. Você dança Heavy Metal balançando a cabeça, batendo e empurrando as pessoas no meio da multidão. Tais danças não estão realmente abertas a pessoas de todas as idades, mas confinadas ao publico jovem e sexualmente disponível. Claro, não há nada que impeça os velhos e engelhados de participar disso, mas vê-los nessa situação é constrangedor, tanto mais quando eles mesmos parecem não o saber.

 

Em outras palavras, o que parece ser ritmo, e o primeiro plano do ritmo, é frequentemente a ausência de ritmo, um abafamento do ritmo pela batida. O ritmo, divorciado da organização melódica, se torna inerte; perde seu valor enquanto gesto e, consequentemente, perde a plasticidade do gesto. As baladas mecânicas e as baladas sintetizadas em computador são colapsadas em efeitos sonoros e deixam de expressar o sorriso humano que se pode notar em toda verdadeira música de dança, desde as bandas de tambores do Caribe até as valsas de Johann Strauss.

 

A melodia tem sido o princípio fundamental da canção popular tradicional; ela torna possível memorizar a letra e cantar junto com a canção. Toda a tradição folclórica contém um repertório de canções e melodias construídas a partir de elementos repetíveis. O American songbook [canções populares americanas mais célebres do século XX] é similar, embora se utilize da nova linguagem melódica e harmônica que surgiu do jazz, e muitas delas têm sofrido para se tornarem conhecidas em todo o mundo. Por outro lado, existe muito pouco, no pop contemporâneo emergente, que mostre, ou invenção melódica, ou mesmo alguma consciência de por que a melodia importa – isto é, uma consciência de seu sentido social e de sua capacidade de dar substancia musical a uma canção de estrofes. Inúmeras canções pop nos dão apenas variações de frases feitas, diatônicas e pentatonicas, unidas não por algum poder intrínseco de junção, mas somente por meio de laboriosas medições de fundo e por uma sequencia de acordes banal.

 

ISSO ME TRÁS DE VOLTA AO ATAQUE de Adorno à “regressão da audição”. Isso descreve com precisão a maneira pela qual o pop contemporâneo – desde Crystal a Lady Gaga – é recebido por seus devotos. Eu não estou falando das letras. Eu estou falando da experiência musical. É correto, sem dúvida, falar de um novo tipo de audição, talvez um tipo de audição que não é audição absolutamente, já que não há melodia de que se falar, já que o ritmo é feito por maquinas, e o único convite à dança é apenas um convite para se dançar consigo mesmo. E é fácil imaginar um tipo de pop que não é assim: um pop que é com o ouvinte e não nele ou a ele. Não há necessidade de se voltar a Elvis e Beatles para encontrar exemplos.

 

Confrontados com a cultura da juventude, somos induzidos a não fazer julgamentos. Mas não fazer julgamentos já é fazer um tipo de julgamento: isso sugere que realmente não importa o que você ouça ou dance, e que não há distinção moral entre os vários hábitos de escuta. Essa é uma posição moralmente carregada, e que é contrária ao senso comum. Sugerir que pessoas que vivem com uma pulsação métrica como constante pano de fundo de seus pensamentos e movimentos estao vivendo da mesma maneira, com o mesmo tipo de atenção e o mesmo padrão de desafios e recompensas que aqueles que conhecem a música apenas para ouvi-la, limpando suas mentes, entretanto, de todas as outras ideias – tal sugestão é certamente implausível.

 

Do mesmo modo, sugerir que aqueles que dançam de maneira solipsista, estimulados pela música Heavy Metal ou Indie, compartilham uma forma de vida com aqueles que dançam, quando dançam, em formação disciplinada, é dizer algo igualmente implausível. A diferença não está meramente no tipo de movimentos que são realizados; é uma diferença que está no valor social, e no valor relativo empregado ao estar com o seu vizinho, em vez de sobre ou contra ele. A batida externalizada do pop é empurrada a nós. Você não pode facilmente se mover com isso, mas você pode se submeter a isso. Quando a música estruturada por esta espécie de movimento externo é tocada numa dança, isso automaticamente atomiza as pessoas na pista de dança. Eles podem dançar uns com os outros, mas apenas penosamente uns com os outros. E a dança não é algo que você faz, mas algo que lhe acontece – um movimento ritmado no qual você está suspenso.

 

Quando você é controlado por um ritmo externo e mecanizado, sua liberdade é subjugada, e é difícil então se mover de modo a sugerir uma relação pessoal com o parceiro. A relação eu-tu na qual a sociedade humana é construída não tem lugar na pista de dança da discoteca. Platão estava sem dúvida correto, portanto, ao pensar que quando gastamos nosso tempo com música nós estamos educando nosso caráter. Pois estamos conhecendo um aspecto da nossa encarnação enquanto seres livres.

 

E ele estava certo ao concluir que aquela encarnação pode ter formas virtuosas ou viciosas. Para dar apenas um exemplo, existe uma profunda diferença, em matéria de conquistas amorosas, entre a modéstia e a lascívia. A modéstia trata o outro como alguém com quem você está. A lascívia é apontada para o outro, mas certamente não está com ele ou com ela, já que é uma tentativa de impedir a liberdade do outro para retirá-la. E é muito claro que esses traços de caráter são exibidos na música e na dança. O pensamento de Platão era que se você mostra luxúria nas danças que você mais gosta, então você está próximo de adquirir o hábito. Há uma grande quantidade de músicas populares melodiosas, e uma abundância de músicas populares com as quais alguém pode cantar junto e dançar de maneira sociável. Tudo isso é óbvio. No entanto, há cada vez mais, dentro do pop, outro tipo de prática em conjunto, em que o movimento não está mais contido na linha musical, mas exportado a um lugar fora dele, para um centro de pulsação que não exige que você o ouça, e sim que você se submeta. Se você se submete, as características morais da música desaparecem por trás da emoção; se você ouve, no entanto, e ouve criticamente como eu tenho sugerido, você vai discernir aquelas qualidades morais, que são tão vívidas quanto a nobreza na Segunda Sinfonia de Elgar ou o horror em Erwartung de Schoenberg. E assim você pode ser levado a concordar com Platão que se essa música for permitida, então as leis que nos governam vão mudar.

 

O Brasil tem guerrilha

ISTOÉ entra na base da Liga dos Camponeses Pobres, um grupo armado com 20 acampamentos em três Estados, que tem nove vezes mais combatentes que o PCdoB na Guerrilha do Araguaia e cujas ações resultaram na morte de 22 pessoas no ano passado

 

O barulho de dois tiros de revólver quebrou o silêncio da noite na pacata comunidade rural de Jacilândia, distante 38 quilômetros da cidade de Buritis, Estado de Rondônia. Passava pouco das 22 horas do dia 22 de fevereiro quando três homens encapuzados bloquearam a estrada de terra que liga o lugarejo ao município e friamente executaram à queima-roupa o agricultor Paulo Roberto Garcia. Aos 28 anos, ele tombou com os disparos de revólver calibre 38 na nuca. Dez horas depois do crime, o corpo de Garcia ainda permanecia no local, estirado nos braços de sua mãe, Maria Tereza de Jesus, à espera da polícia. Era o caçula de seus três filhos. Um mês depois do assassinato, o delegado da Polícia Civil de Rondônia que investiga o caso, Iramar Gonçalves, concluiu: “Ele foi assassinado pelos guerrilheiros da LCP.”

A sigla a que o delegado se refere, com estranha naturalidade, quer dizer Liga dos Camponeses Pobres, uma organização radical de extrema esquerda que adotou a luta armada como estratégia para chegar ao poder no País através da “violência revolucionária”. Paulo Roberto foi a mais recente vítima da LCP, que, sob a omissão das autoridades federais e o silêncio do resto do Brasil, se instalou há oito anos na região e, a cada hora, se mostra mais violenta. Apenas em 2007, as operações do grupo produziram 22 vítimas – 18 camponeses ou fazendeiros e quatro guerrilheiros. Amplamente conhecidos em Rondônia, os integrantes da LCP controlam hoje 500 mil hectares. Estão repartidos em 13 bases que se estendem de Jaru, no centro do Estado, às cercanias da capital Porto Velho, se alongando até a fronteira com a Bolívia, região onde eles acabaram de abrir uma estrada. O propósito dos guerrilheiros seria usá-la como rota de fuga, mas, enquanto não são incomodados nem pela Polícia Federal nem pelo Exército, a trilha clandestina está sendo chamada de transcocaineira – por ela, segundo a polícia local, passam drogas, contrabando e as armas da guerrilha.

ÁREA PROIBIDA

A nenhuma dessas colônias o poder público tem acesso. Sob o manto da “revolução agrária”, a LCP empunha as bandeiras do combate à burguesia, ao imperialismo e ao latifúndio, enquanto seus militantes assaltam, torturam, matam e aterrorizam cidades e zonas rurais nessas profundezas do Brasil. Encapuzados, armados com metralhadoras, pistolas, granadas e fuzis AR-15, FAL e AK-47 de uso exclusivo das Forças Armadas, eles já somam quase nove vezes mais combatentes que os 60 militantes do PCdoB que se embrenharam na Floresta Amazônica no início dos anos 70 na lendária Guerrilha do Araguaia. “A Colômbia é aqui”, diz o delegado Gonçalves, numa referência às Farc.

 

NO CORAÇÃO DA GUERRILHA Armado de AR-15, policial entra em território dominado pela LCP e uma barreira que proíbe o acesso ao centro de treinamento militar. “Não dá para observá-los, mas estamos sob sua mira”, diz à reportagem de ISTOÉ um sargento da PM de Rondônia

A reportagem de ISTOÉ entrou nessa área proibida. No distrito de Jacinópolis, a 450 quilômetros de Porto Velho, bate o coração da guerrilha. Segundo o serviço secreto da Polícia Militar de Rondônia, é ali que está o campo de treinamento. “Nem com 50 homens armados eu tenho coragem de entrar na invasão deles”, admite o delegado. Caminhar pelas hostis estradas enlameadas é como pisar em solo minado. A todo momento e com qualquer pessoa que se converse, o medo de uma emboscada é constante. Os militantes adotam as táticas de bloqueio de estradas e seqüestro das pessoas que trafegam pela área sem um salvo-conduto verbal liberado pela LCP. “É a forma de combater as forças inimigas”, escreveram eles num dos panfletos que distribuíram na região. “Esses bandoleiros foram muito bem treinados pelos guerrilheiros das Farc”, revela o major Enedy Dias de Araújo, ex-comandante da Polícia Militar de Jaru, cidade onde fica a sede da Liga.

Para se chegar à chamada “revolução agrária”, dizem os documentos da LCP aos quais ISTOÉ teve acesso, a principal ação do grupo é pôr em prática a chamada “violência revolucionária”. E, para os habitantes locais, essa tem sido uma violência fria e vingativa. No caso da sua mais recente vítima, o que a LCP fez foi uma execução sumária, após um julgamento interno suscitado pela desconfiança sobre o real propósito da presença de Paulo Roberto Garcia na região. “Eles acreditam que o rapaz era um agente infiltrado como agricultor e não tiveram dúvida em matálo”, disse o delegado. Dos 22 mortos de 2007, quatro eram fazendeiros e 14 eram funcionários das fazendas, que a liga camponesa classifica como paramilitares. Na parte dos guerrilheiros, quatro foram enterrados – assassinados em circunstâncias distintas por jagunços das fazendas da região.

Além de matar, a LCP é acusada pela polícia de incendiar casas, queimar máquinas e equipamentos e devastar a Floresta Amazônica. Os moradores da comunidade onde vivia Garcia não sabem o que é luta de classe, partido revolucionário e muito menos socialismo. Mas eles sabem muito bem que, desde a chegada da LCP naquelas bandas, a morte matada está vencendo a morte morrida.

ALERTA NA SELVA

Só quem consegue transitar livremente no território da guerrilha são os caminhões dos madeireiros clandestinos, que pagam um pedágio de R$ 2 mil por dia à LCP para rodar nas estradas de terras controladas pela milícia. Em troca do pedágio, os guerrilheiros dão segurança armada aos madeireiros para que eles possam roubar árvores em propriedades privadas, áreas de conservação e terras indígenas. São terras que a LCP diz ter “tomado” – e o verbo tomar, no lugar de “invadir” ou “ocupar”, como prefere o MST, não é mera semântica, mas uma revelação do caráter belicoso do grupo. “A falha é do Exército brasileiro, que deixa esses terroristas ocuparem nossa área de fronteira”, acusa o major Josenildo Jacinto do Nascimento. Comandante do Batalhão de Polícia Militar Ambiental, Nascimento sente na pele o poder e a arrogância desse bando armado.

No ano passado, eles derrubaram uma base militar da Polícia Ambiental dentro de uma unidade de conservação e seqüestraram seus soldados. “A tática utilizada pela LCP para as emboscadas é certeira”, admite um dos militares, mantido preso por sete horas. “Como são estradas de terras, no meio da floresta, eles derrubam árvores, que fecham o caminho. Quando as pessoas descem do carro para retirar a tora, são rendidas”, diz E. S., militar da Polícia Ambiental, que recorre ao anonimato para se proteger. “Essa guerra é um câncer que está se espalhando pelo Estado”, alerta Nascimento.

Assim como consta nos panfletos da Liga, os guerrilheiros postam homens em bases nos morros com binóculos e rojão para anunciar a “invasão” de sua área por “forças inimigas”. Depois de sermos monitorados de perto por grupos de motoqueiros, durante os 38 quilômetros que levamos uma hora e meia para percorrer no território dominado pela LCP, ouvimos uma saraivada de rojões anunciando nossa presença. Estávamos próximos a uma base. O alerta serve também para que os homens armados se infiltrem na mata ocupando as barricadas montadas com grandes árvores nas cercanias dos acampamentos.

     

 

MORTE NO CAMPO

O agricultor Garcia (à dir.) foi morto com dois tiros na nuca. “Os guerrilheiros achavam que ele era um agente infiltrado na área da guerrilha”, disse o delegado Iramar Gonçalves. Os líderes da LCP acusados de assassinato são Russo (à esq.) e Caco, foragido

“O fato é que não dá para observá-los, mas estamos sob sua mira”, adverte o militar da Polícia Ambiental que nos acompanha. Na verdade, a PM Ambiental é a única força do Estado cuja presença ainda é tolerada pela guerrilha. A explicação é simples: com apenas oito agentes para cuidar de quase 900 mil hectares naquela região, eles não representam ameaça ao grupo. Antes, serão presas fáceis se assim os militantes o desejarem.

A BASE

Logo que o barulho dos rojões reverbera na imensidão da selva, as mulheres e crianças vestem seus capuzes e assumem a linha de frente. Quando se chega ao topo de um morro, depois de passar por uma barricada construída com o tronco de uma imensa árvore com a inscrição da Liga, avista-se uma bandeira vermelha tremular na franja de um acampamento de casas com cobertura de palha. Pouco tempo depois, outra barricada e chega-se a uma parada obrigatória. Do outro lado da porteira, transcorreu o seguinte diálogo com uma trupe maltrapilha, encapuzada e arredia.

– O que vocês vieram fazer aqui? – disse um nervoso interlocutor mascarado.
– Somos jornalistas e queremos saber o que vocês têm a dizer sobre a reforma agrária e a Liga dos Camponeses Pobres.
– Podem ir embora, não temos nada a dizer. Vocês só atrapalham.
– Quantas famílias estão nesta invasão?
– 300.
– Podemos falar com o líder de vocês?
– Aqui não existe líder, todos somos iguais.
– Por que vocês ficam mascarados?
– A máscara é nossa identidade.
– Vocês acreditam que podem fazer uma revolução?
– Não temos que dar satisfações à imprensa burguesa.
– De quem vocês recebem apoio?
– Não interessa.
– Podemos entrar no acampamento?
De forma alguma. Vão embora daqui!

Com colete à prova de balas sob a camisa, saímos da porteira do acampamento por uma questão de segurança e voltamos a percorrer de carro, numa estrada precária, mais uma hora e meia até o primeiro ponto de pedágio da LCP. “No ano passado, fomos presos por eles, éramos oito militares e eles tinham mais de 50 homens armados com metralhadoras”, conta o sargento da tropa. “Não tem jeito, para resolver o problema com esse bando só com uma ação conjunta do Exército, da Polícia Federal e das forças do Estado.”

   

TERROR O fazendeiro Sebastião Conte (à esq.) teve a sede, os tratores e seu plano de manejo incendiados. Os guerrilheiros não pouparam nem mesmo o posto da Polícia Ambiental, que foi destruído. Nos acampamentos, eles colocam crianças na linha de frente e usam capuzes

Ao voltar da área dominada pela LCP, fica claro, nas reservadas conversas com alguns poucos moradores dispostos a contar algo, que o terror disseminado pela guerrilha se mede pelo silêncio dos camponeses. Os revoltosos controlam a vida das pessoas, além de investigar quem é quem na região. Quem não “colabora” com eles – fornecendo dinheiro, gado ou parte da produção – vira alvo de ataques covardes. Histórias de funcionários das fazendas da região que foram colocados nus sobre formigueiros ou que apanharam até abandonar o local estão muito presentes na memória dos moradores. As torturas praticadas pelos bandoleiros contra trabalhadores rurais dificultam até contratação de mão-de-obra na região. “Ninguém quer trabalhar mais na minha fazenda”, admite Sebastião Conte, proprietário de 30 mil hectares de terra. Ele teve parte de sua terra “tomada” há dois anos pela LCP, a sede da fazenda foi queimada, assim como seus tratores, alojamentos e área do manejo florestal. O fazendeiro, acusado pela Liga de ser um latifundiário, é prova de que o terror da guerrilha é igual para todos. Segundo ele, nos últimos dois anos, teve que enterrar três de seus funcionários. “Todos eles assassinados barbaramente”, diz Conte. “Estou pedindo socorro. Não sei mais a quem recorrer.”

Longe de lá, na cidade de Cujubim, os trabalhadores rurais empregados das fazendas não dispensam o porte de armas. “Aqui ou você anda armado ou está morto”, diz M.L. O capataz da fazenda e seu filho já perderam a conta de quantas vezes trocaram chumbo com os mascarados que tentam invadir a fazenda. Tratados como paramilitares, os funcionários das fazendas são, depois dos fazendeiros, os alvos prediletos dos ataques da Liga. Nelson Elbrio, gerente da Fazenda Mutum, teve o azar de cair nas mãos da “organização”. Ele foi rendido exatamente como os militares da Polícia Ambiental e ficou preso sob a mira de uma arma por seis horas. “Assim que eu fiz a curva na estrada dei de cara com uns 15 homens encapuzados e fortemente armados. Eles me tiraram do carro e a partir daí vivi um inferno”, conta Elbrio. “Eles queriam que eu revelasse os segredos da fazenda: quantas pessoas trabalhavam lá, depósito de combustível, se tinha seguranças armados.” O sofrimento do funcionário se estendeu até o final da tarde, quando o grupo o arrastou até a sede da fazenda, dando tiros de escopeta próximo a seu ouvido. Em seguida, o obrigaram a assisti-los incendiando a propriedade e os tratores. “Nunca mais dormi bem”, diz Elbrio.

Com a morte à espreita, o medo transformou distritos inteiros em zonas despovoadas – verdadeiras vilas fantasmas – e criou uma massa de gente refugiada de sua própria terra, expulsa pela guerrilha. Em Jacilândia, das 25 casas de madeira da única rua do distrito, só oito estão habitadas. Até a igreja fechou suas portas. “O povo foi embora com medo dos guerrilheiros”, conta um dos moradores, um ancião que só admite a entrevista sob o anonimato. “Aqui não podemos falar nada. Para ficar de pé tem que se aprender a viver”, diz o velho agricultor. O silêncio e o abandono das terras são a mais dura tradução desse novo modo de viver. Maria, a mãe do agricultor assassinado, não esperou a missa de sétimo dia do caçula. Deixou para trás os 100 hectares, onde tinha 100 cabeças de gado e a casa recém-construída. Partiu para um lugar ignorado, sob a proteção de outro filho.

O SILÊNCIO
Naquele pedaço de terra, os poucos que, apesar de tudo, permanecem na área não têm rostos ou nomes. Quando interrogados pela polícia na apuração dos crimes, eles se tornam também cegos e surdos. “Não existe testemunha de nada”, reclama o delegado Gonçalves. A razão das infrutíferas apurações policiais é que os insurgentes presos são facilmente liberados pela Justiça. “Como eles usam a tática guerrilheira do uso de máscaras em suas ações, nós ficamos de mãos atadas para puni-los. Nunca se sabe quem de fato matou”, queixa-se o delegado. As únicas lideranças da LCP a enfrentar a prisão por causa de assassinatos foram Wenderson Francisco dos Santos (Russo) e Edilberto Resende da Silva (Caco), que se encontra foragido. Os dois foram acusados de participar do assassinato do trabalhador rural Antônio Martins, em 2003. Russo foi absolvido em primeira instância e os promotores recorreram da decisão ao Tribunal de Justiça.

MEDO OU CAUTELA?
“Nem com 50 homens armados eu tenho coragem de entrar nas terras deles”, diz o delegado Gonçalves

A ABIN SABE
Essa tensão é o pano de fundo de uma guerra psicológica que os ideólogos da organização avaliam como a ideal para que a área seja abandonada pelos fazendeiros. “A melhor forma de desocupar a área é destruindo o latifúndio”, nos disse um dos mascarados, chamado de Luiz por um colega. Na lógica da LCP, os fazendeiros têm que tomar prejuízo sempre, senão eles não abandonam a terra. À frente de 300 famílias da invasão da Fazenda Catanio, uma propriedade de 25 mil hectares, o guerrilheiro Luiz defende o confisco do gado para matar a fome dos invasores e considera que a “tomada” de terra é a forma legal de fazer uma “revolução agrária”. “Se esperarmos a Justiça, ficaremos anos plantados aqui”, diz ele.

A audácia dos militantes da LCP é tanta que no ano passado mais de 200 deles marcharam encapuzados pelas ruas do município de Buritis, a 450 quilômetros de Porto Velho, até parar na porta da delegacia, onde exigiram a saída do delegado Gonçalves da comarca. Motivo: ele tinha prendido um dos líderes da facção guerrilheira. Não satisfeitos, os bandoleiros bateram às portas do Ministério Público e da Justiça exigindo que os titulares dos órgãos também se afastassem. O fato foi reportado ao Ministério da Justiça, ao presidente Lula e ao governo estadual. Até agora, não houve nenhuma resposta. “Ninguém leva a sério nossas denúncias. Eles pensam que estamos brincando, que a denúncia de guerrilha é um delírio”, indigna-se o delegado Gonçalves. “Isso vai acabar numa tragédia de proporções alarmantes, e aí sim vão aparecer os defensores dos direitos humanos”, critica ele. É exatamente nessa desconsideração das denúncias de promotores, juízes e militares que a Liga ganha força e cresce impunemente.

Tão trágica quanto o terror que esse grupo armado impõe às comunidades rurais é o fato de os governos estadual e federal saberem da existência desse bando armado – e não fazerem nada. Segundo o Dossiê LCP, um relatório confidencial da polícia de Rondônia, com 120 páginas, encaminhado em dezembro passado à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ao Exército e ao Ministério da Reforma Agrária, o grupo armado, além de cometer todo tipo de barbaridade, é financiado por madeireiros ilegais. Conforme o documento, a LCP controla uma área estimada em 500 mil hectares, onde doutrina mais de quatro mil famílias de camponeses pobres espalhadas por mais de 20 assentamentos da reforma agrária distribuídos pelos Estados de Minas Gerais, Pará e Rondônia. “Eles estão na contramão do que é contemporâneo. Mas, de fato, formaram um ‘Estado’ paralelo”, entende Oswaldo Firmo, juiz de direito da Vara especializada em Conflito Agrário do Estado de Minas Gerais.

FORÇA-TAREFA
Documentos em poder de ISTOÉ comprovam que as autoridades federais têm feito ouvidos de mercador para o problema. No dia 11 de janeiro de 2008, o ouvidor agrário do governo federal, desembargador Gercino José da Silva Filho, acusou o recebimento das denúncias encaminhadas a ele sobre as ilegalidades cometidas por integrantes da Liga dos Camponeses Pobres. Mais uma vez, nada foi feito. “Eles dizem que sabem de tudo, mas cadê a ação?”, questiona o major Nascimento, comandante da Polícia Militar Ambiental de Rondônia. “Essa situação aqui só será resolvida em conjunto com outras forças militares”, admite o major. Foi o que aconteceu no Estado do Pará, em novembro passado, na chamada Operação Paz no Campo, quando uma ação envolvendo o Exército, as polícias civil e militar e a Polícia Federal desocuparam um acampamento da LCP na Fazenda Fourkilha, no sul do Estado. Com dois helicópteros, 200 homens e 40 viaturas, a força-tarefa cercou o local, prendeu cerca de 150 militantes e recolheu um verdadeiro arsenal de guerra. “Precisamos da mão forte do Estado. Aqui somos tratados como cidadãos marginais”, emenda o fazendeiro Sebastião Conte.

RICA

 FONTE: ISTOÉ http://www.istoe.com.br/reportagens/2158_O+BRASIL+TEM+GUERRILHA#.UVmm0Kj930Q.twitter

Novo Papa classifica o “casamento” gay como “conspiração do pai das mentiras”

PAPAO Cardeal Jorge Bergoglio, agora Papa Francisco, é conhecido dos leitores do LifeSiteNews como um valente defensor da vida e da família.

Em termos de “casamento” homossexual, o Cardeal Bergoglio lutou bravamente para se ter uma lei na Argentina que continuasse a defender a família tradicional.

Em julho de 2009, ele pediu aos sacerdotes da Arquidiocese de Buenos Aires que trouxessem os fiéis a um protesto contra o “casamento” homossexual.

Não sejamos ingênuos, não estamos falando de uma simples luta política. Esta é uma pretensão destrutiva contra os planos de Deus”, escreveu o Cardeal Bergoglio em uma carta enviada aos monastérios de Buenos Aires. “Não estamos falando de um simples projeto de lei, mas, antes, de uma conspiração do Pai das Mentiras, que procura confundir e enganar os filhos de Deus”.

Aos clérigos das paróquias, Bergoglio pediu que todos lessem em seus púlpitos a declaração defendendo a verdadeira definição e entendimento de casamento.

”O povo argentino terá que enfrentar, nas próximas semanas, uma situação que pode prejudicar gravemente a família. Nós estamos falando de um projeto de lei relativo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, um projeto que põe em discussão a identidade, e a sobrevivência da família: pai, mãe e filhos”.  Os últimos, alerta Bergoglio, podem também ser ameaçados pela adoção homossexual, o que seria uma verdadeira forma de discriminação.

O país agora precisa “da assistência especial do Espírito Santo, para pôr a luz da verdade no meio da escuridão do erro, para nos defender contra o encantamento de vários sofismas, com os quais procuram justificar este projeto de lei”, escreveu ele.

Ao mesmo tempo, em uma história que está sendo bastante repetida hoje, o Papa Francisco demonstrou sua compaixão quando visitou um hospício na Quinta-Feira Santa, onde ele beijou e lavou os pés de doze pacientes portadores de AIDS, uma doença que é frequentemente associada à homossexualidade.

Fonte: LifeSiteNews
Tradução: Jorge Alberto

Outros assuntos

Eis que, da noite para o dia, todos conhecem o ladrão. É verdade que o descontentamento com Marco Feliciano parte de um sentimento de ingenuidade recorrente; pergunto à multidão quem conhecia uma das figuras mais patéticas do cenário evangélico e meia dúzia levanta a mão, não mais que isso. Ora, a Comissão de Direitos Humanos nasceu morta porque justamente pretende e sempre pretendeu a imputação do humanismo nas características mais legítimas da esquerda latina. O problema é que no imaginativo popular referida Comissão trouxe e é algo de relevante no sentido mais puro da palavra: tendo relevância, seria ela também um indicativo de que a república não sucumbiu ao descaso total, “afinal, temos uma Comissão de Direitos Humanos tal qual o Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Não somos então civilizados?”.

Nisso, Feliciano se adéqua belamente ao “status quo” da comissão mediante discursos que pretendem acomodar do politicamente correto à sandice…

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